Muito se fala sobre inclusão social, mas pouca coisa é feita para que ela seja realmente praticada. Na contramão dessa realidade, o psicólogo, especialista em Morfofisiologia Humana e Filosofia, Valmir Batista da Silva, transformou sua monografia acadêmica num projeto que faz a inclusão social funcionar por meio da arte.

Valmir é escultor autodidata e, ainda durante a faculdade, já participava de projetos de extensão, ensinando pessoas com algum tipo de deficiência a trabalharem com esculturas em argila.

“Nesse projeto eu trabalhava com pessoas que tinham problemas de aprendizagem. Aqueles com deficiência motora não eram atendidos, já que o comprometimento motor implicava muitas limitações. O trabalho com a argila deve ser feito com as mãos, e esse público acabava ficando fora do atendimento”.

Foi questionando essa limitação que ele decidiu comprovar, cientificamente, se realmente não era possível ensinar modelagem e escultura para pessoas com deficiência motora. As pesquisas começaram ao final da graduação, mas foi na especialização que encontrou o conceito da Neuroplasticidade, termo técnico que diz respeito a nossa capacidade inerente de aprendizado, quando o cérebro é estimulado. E foi a partir da Neuroplasticidade que começou a desenvolver o trabalho.

Fábio Dias

Do conceito à prática

Em toda a pesquisa, foram dedicados seis anos entre trabalhos e estudos, tendo a arte como principal ferramenta. “Eu escolhi a arte da escultura em argila pois essa modalidade artística é um remédio para a alma, permite que o invisível pensamento se materialize e possa ser visto e decodificado. A arte permite a autocura, levando o sujeito a reconhecer seus sentimentos. A escultura permite que as pessoas canalizem seus sentimentos (…) possibilita o desenvolvimento interpessoal e contribui para a autoconfiança”.

Criando uma metodologia de ensino própria e analisando as teorias sobre neuroplasticidade e a capacidade de aprendizagem, Valmir pôde comprovar que, com a arte, muitas limitações vão embora. “A escultura em argila trabalha áreas do cérebro como o lobo frontal, que é responsável pelo planejamento das ações, pensamento lógico (…) Essa área é responsável pelas funções psicológicas superiores e também estimula a área motora que é responsável pela execução dos movimentos.”

A revelação de um artista

Fábio Dias

A pesquisa de Valmir acabou se tornando um projeto fixo na Universidade Estadual de Maringá. E acabou abrindo portas para que muita gente pudesse encontrar seu caminho através da Arte. Uma dessas pessoas é Edvan Dias Souza, que foi convidado por Valmir para ser parte das pesquisas de campo  ainda no início dos estudos.

Apesar das dificuldades da deficiência nunca o terem impedido de sair sozinho, praticar esportes ou estudar, Edvan buscou na argila uma forma de fortalecer os movimentos e expressar suas emoções e sentimentos. Atividades simples que ele não conseguia realizar – como amarrar os cadarços – foram sendo conquistadas conforme sua dedicação à arte.

Dentro do projeto, Edvan aprendeu os passos básicos para a escultura, até conquistar a liberdade de criar suas próprias obras. Não demorou para que o professor Valmir reconhecesse seus talentos e o incentivasse a se inscrever em mostras artísticas. Foi assim que o sujeito da pesquisa se tornou um produtor cultural. Em 2005, Edvan teve duas obras selecionadas para a Mostra Paranaense de Artes Visuais da Região Norte.

Em 2011, o projeto Arte e Neuroplasticidade, representado por Edvan, foi uma das duas iniciativas brasileiras convidadas para participar da Abilympics. No evento, que aconteceu na Coréia do Sul, se discute a inclusão de pessoas com deficiência. Edvan também se tornou professor do projeto Arte e Inclusão e dá palestras sobre suas experiências, passando pra frente muito do que aprendeu.

Arte e Neuroplasticidade

O Arte e Neuroplasticidade é realizado com o objetivo de facilitar o contato e a evolução por meio da arte, sem burocracias. A proposta da inclusão social não é direcionada somente para pessoas com deficiência motora, mas para qualquer um que precise.

As aulas são gratuitas e realizadas às quartas-feiras, das 15h às 18h, na  Sala 1 do Bloco 6 da UEM (Universidade Estadual de Maringá). 

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