A banda Carne Doce foi explosiva e barulhenta durante cinco anos de carreira, na ânsia de se fazer conhecida e de se colocar e existir dentro do cenário da música independente brasileira. O grito foi ouvido e o reconhecimento chegou. Junto, veio a maturidade, a experiência da estrada e a convivência do quinteto, que culminam na força e na potência contemplativa de “Tônus”, terceiro álbum de estúdio da banda, lançado em julho deste ano, com apoio do edital Natura Musical.

Durante a turnê de lançamento do novo trabalho, a banda goiana chega pela primeira vez em Maringá, no próximo dia 22 (sábado), e se apresenta na Circular Alternativa #1, que ainda conta com show da banda da casa, Stolen Byrds. Os shows são gratuitos e começam a partir das 20h, no Paço Municipal. Mas, antes, as bandas participam de um painel sobre “Os desafios da produção musical independente”, ao lado de Fernando Dotta (Balaclava Records) e Marcelo Domingues (Demo Sul), a partir das 15h30, na sala de reuniões do gabinete do prefeito.

Carne Doce surgiu em Goiânia, em 2013, a partir do casal Macloys Aquino (guitarra) e Salma Jô (vocal), que expunham os sentimentos e a vida de um casal em letras e poesias, escritas “à mesa ou à cama”, como dizem no próprio Bandcamp. Para musicar as primeiras canções, o casal juntou, então, o quinteto: João Victor Santana (guitarra e sintetizadores), produtor dos três discos, Anderson Maia (baixo) e Ricardo Machado (bateria).

Foram menos de quatro meses para ensaio e gravação das dez canções que compunham o primeiro disco da carreira, “Carne Doce” (2014). A projeção nacional, que veio com o segundo disco, “Princesa” (2016), consolidou, definitivamente a Carne Doce como banda. Um trabalho multifacetado, com canções que falam de intimidade, carinho, memória, infância, origem rural, mas que, por um momento político em ebulição, ficou marcado, para o bem ou para o mal, pelas posições feministas, principalmente por faixas como Falo e Artemísia.

Depois de cinco anos tocando e convivendo juntos, a banda registrou no disco “Tônus” a maturidade dessa caminhada. São dez canções íntimas, introspectivas e mais calmas, em relação aos trabalhos anteriores. Faixas que demonstram o melhor diálogo existente entre os integrantes.

“É uma banda que está tocando a mais tempo junto e que, com o tempo, aprendeu a dialogar melhor. Isso é muito importante, diálogo é saber falar nas “horas certas”, porque saber falar significa, ou implica, a priori, saber ouvir. Você precisa saber ouvir para saber falar. A gente sente isso na banda, a gente dialoga muito melhor musicalmente hoje”, relata o guitarrista Macloys.

As explosões dos vocais de Salma Jô foram substituídos por uma potência ensurdecedora, a começar pela faixa de abertura, Comida Amarga, composta por ela e João Victor, que fala do momento decadente do fim de um relacionamento, com um refrão que “é um tocar o foda-se, a liberação, a fuga na promiscuidade, o autoflagelo na promiscuidade”, explica a própria compositora, no Youtube. Ainda voltada para o término, Salma compôs Nova Nova.

Em Amor Distrai (Durin), que comemora mais uma parceria com Dinho, integrante da Boogarins, a relação é colocada de forma mais obscena, ou como diz a vocalista: “safada”. “Relaxa, encaixa, engata em mim / Me bota sem apoio / Seu corpo é meu apoio / Pra eu deixar cair / Sem me machucar muito / Hoje eu só quero dar / E não fazer amor (…) Porque eu só gozo assim / Em alto e bom som”.

Os temas ainda giram em torno de relações familiares, como em Irmãs e em Ossos; relações de amizade, em Já Passou; a própria relação de uma banda independente com o público, em Besta; o envelhecimento, o viço (falta ou vontade do vigor juvenil) e a ação da gravidade, na faixa que dá nome ao disco; e a polarização política, em Golpista.

Apesar dos cinco anos de carreira e a projeção nacional, com passagem pelos principais festivais de música do Brasil, como Bananada, Radioca, Vaca Amarela, Psicodália, Breve, Popload, Coquetel Molotov, DoSol e alguns outros, são os integrantes os responsáveis pela própria gestão da banda.

Inclusive, foi o próprio Macloys Aquino quem agendou e também respondeu a entrevista com a Circular Pocket, e nos falou sobre essa autogestão, a mudança e amadurecimento do novo trabalho, recepção do público, maior participação dos integrantes com produção e composição, show na Circular Alternativa, entre outros assuntos.

– Para matar a curiosidade, antes de mais nada, o que o público de Maringá pode esperar dessa primeira apresentação da Carne Doce por aqui?

Eu sinto que as pessoas estão pedindo a gente em Maringá faz um tempo. Não sei por qual motivo específico, mas eu tenho a impressão que tem uma expectativa a ser cumprida aí, as pessoas parecem que querem assistir esse show aí em Maringá. E, independentemente do setlist, show se faz com o público. A reação, envolvimento e troca com as pessoas é importante na execução de um show. Então, por essa expectativa eu acho que o show de Maringá vai ser bem massa. Vai ter resposta e com isso a gente se retroalimenta e se entrega mais e mais. Enfim, acho que vai ser bem massa. A gente vai apresentar o show que a gente tem feito nessa leva de primeiros shows de lançamento do “Tônus”. A gente está tocando o disco quase todo e tocamos algumas músicas conhecidas do “Princesa” e uma do “Carne Doce”.

– Ao contrário de “Princesa”, em que ficaram cerca de um mês em São Paulo para gravar, “Tônus” vocês gravaram em Goiânia, nos estúdios UP Music e Complexo. Como foi esse processo de gravação?

O processo de gravação em Goiânia foi ótimo. Falando de acessibilidade a meios tecnológicos, a gente não perdeu em nada, porque a gente gravou em um dos estúdios mais bem montados de Goiânia. Então, em termos de equipamento e material humano, a gente não ficou nada atrás do que a gente poderia ter encontrado em São Paulo ou qualquer outros estúdios, em termos técnicos. Talvez em termos estéticos (tenha diferença), a gente gravou num estúdio que é um estúdio conhecido e ocupado por nomes da música sertaneja. É um dos estúdios mais bem montados de Goiânia, mas, esteticamente, tem essa carga, esse significado. Talvez em São Paulo a gente tivesse acesso a produtores e pessoas que pudessem dar essa orientação estética, sonora e artística, mas, como a gente já tinha decidido que quem produziria o disco seria o João Victor (guitarrista), continuando um trabalho que a gente tem feito desde o primeiro disco, em 2014, não tinha porque ir para São Paulo.

– Muito se falou do amadurecimento do grupo nas divulgações de “Tônus”, o que realmente é muito perceptível. Para vocês, quais as principais diferenças entre o Tônus e os outros dois discos: “Carne Doce” (2014) e “Princesa” (2016)?

Acho que a principal diferença, e amadurecimento tem a ver com isso, é o fato da gente estar tocando mais tempo juntos. Esse grupo que gravou o disco trabalha junto desde 2014, é a mesma banda, então a gente tem tocado mais, porque passou mais tempo juntos. Fizemos mais turnês e vivemos mais coisas juntos. Isso torna as nossas relações mais maduras mesmo, como grupo, como banda, como grupo de trabalho, como parceiros musicais. Acho que isso está bem refletido sonoramente no disco. No que se refere a letra, a Salma poderia dizer melhor, porque ela entrou em outros insigts, outros estímulos de inspiração. Mas, mesmo nas letras, tudo que a gente conseguiu dizer em “Tônus” tem a ver com o tempo que a gente passou junto, tem a ver com o tempo que a gente está tocando junto. Uma banda que toca e grava um disco com nem quatro meses de formação, que foi o caso do disco do “Carne Doce” (2014), e depois a mesma equipe toca e grava há cinco anos juntos, tem um impacto grande.

– O amadurecimento também foi creditado às músicas mais lentas e cantadas com menos explosões e gritos. Gostaria que comentasse um pouco sobre essa mudança.

A Salma sempre fala uma coisa que faz sentido: quando a gente lançou o “Carne Doce”, em 2014, a banda não era uma banda conhecida e a gente sentia essa necessidade de se fazer conhecido, de se colocar, de existir. E isso envolve muita ansiedade, necessidade de se afirmar. Então, talvez a gente tenha gritado mais e tocado mais alto exatamente por isso, por essa ansiedade de existir. “Princesa” (2016) talvez tenha sido a consolidação disso e no “Tônus” a gente já era uma banda relativamente conhecida, tinha um espaço mais ou menos conquistado. É lógico que a gente precisa ampliar muito nosso escopo, mas a gente não sentia essa necessidade de outrora, de existir.

E tem a ver com o que eu disse na resposta anterior também, é uma banda que está tocando a mais tempo junto e que, com o tempo, aprendeu a dialogar melhor. Isso é muito importante, diálogo é saber falar nas “horas certas”, porque saber falar significa, ou implica, a priori, saber ouvir. Você precisa saber ouvir para saber falar. A gente sente isso na banda, a gente dialoga muito melhor musicalmente hoje.

– A mesma pergunta eu faço em relação ao disco ser mais introspectivo, mais íntimo, pessoal, ao contrário de “Princesa”, que parece falar mais a partir de outros personagens, sobre pautas coletivas. Como foi essa mudança?

Nada disso foi planejado. A gente não partiu de um ponto em que a gente tenha definido ser mais íntimo ou mais introspectivo. As músicas foram saindo por um motivo extraordinário, que talvez a gente nem consiga descrever ou identificar. Mas pode ter a ver com o fato da gente ter vivido mais tempo juntos. “Princesa” foi um disco que trouxe visibilidade para gente e isso foi muito positivo. Foi o disco que fez a gente existir de fato, e ter uma agenda e uma capacidade de circulação nacional. Mas muito por conta de um movimento de absorção de contexto político. Um contexto político favorável que fez com que a gente fosse projetado e fez com que as nossas músicas fossem mais potencializadas.

Tudo isso foi positivo, mas também trouxe outro tipo de repercussão, porque a gente começou, por outro lado, a ser lido como uma banda com uma bandeira e um posicionamento específico, uma banda militante, uma banda com uma causa política, quando na verdade a gente nunca foi e nunca quis ser. Isso trouxe reconhecimento e crescimento, mas também trouxe alguns desgastes, alguns mal entendidos, interpretações equivocadas sobre o que a gente estava fazendo. “Princesa” é um disco com 11 faixas e tem faixas que falam de intimidade, carinho, outras que falam de memória, infância, origem rural, é um disco multifacetado, mas que foi entendido como um disco feminista por conta de duas faixas: Artemísia e Falo.

A gente entende isso, a parte valendo como o todo, por conta do contexto político inflamado. E toda essa experiência fez com que a gente tivesse uma perspectiva diferente de realidade, social, política e artística. Então, pode ser que o “Tônus” tenha sido um reflexo disso. É óbvio e evidente que o “Tônus” não teria saído antes do “Princesa”, ele saiu do “Princesa”. Alguma explicação deve ter, eu estou tentando fazer uma ligação entre uma coisa e outra, mas isso não é tão objetivo, não é tão claro, mas alguma coisa aí tem a ver.

– Essas diferenças entre os dois discos preocuparam vocês de alguma forma, ao pensarem sobre a recepção do público? Como tem sido essa recepção?

Na verdade a gente sabia como seria o disco bem antes da gravação, porque a pré-produção feita pelo João (Victor) incluiu a gravação dessas faixas quase todas, em casa. Quando a gente se deparou com o conjunto das músicas, observamos o que já tinha gravado, a gente sentiu um pouco de aflição por isso, por acreditar que as músicas estavam muito introspectivas e que teriam um tempo de digestão maior, exigiam um pouco mais de cuidado e tempo do ouvinte.

Enfim, a gente até começou a falar disso antes de lançar o disco, a gente começou a falar em nossas redes. E quando soltamos o disco, para surpresa da banda e de todos que produziram e gravaram, isso não só não aconteceu, como aconteceu o contrário. As pessoas se conectaram rapidamente e, muito rapidamente, começaram a ressignificar as letras e canções, encontrar sentidos e comentar. Tudo isso foi uma surpresa muito positiva para gente.

Acabou que esse disco teve um impacto imediato maior que “Princesa”, o que foi muito bom.  A gente lançou e dois dias depois estávamos em Santos (SP), que foi onde tocamos pela primeira vez, e as pessoas já estavam cantando as músicas. No dia seguinte nós tocamos no Centro Cultural São Paulo (CCSP), ingressos esgotados, as pessoas cantando em coro todas as músicas. E isso foi muito bom. A gente tocou em Curitiba e isso se repetiu, tocou em Ponta Grossa e também aconteceu. Em Goiás, até músicas do “Tônus” que a gente não achou que teria tanto impacto, como Besta e outras, foram cantadas. Isso foi muito bom mesmo, foi uma excelente quebra de expectativa que a gente teve.

– Nesse disco teve mais participação de João Victor e de toda a banda nas composições, inclusive com música criada durante jams. Como enxergam esse maior envolvimento de todos os integrantes?

A banda começou a dialogar melhor e trabalhar melhor como conjunto e a gente começou a trabalhar melhor como banda. Isso é muito bom. Hoje eu ainda acho que a gente demorou um pouco para chegar nisso e espero que isso cada vez seja mais recorrente. Espero que nos próximos discos a Carne Doce seja mais coletiva e com mais participações nas composições. Mais estímulos e mais origem em todo grupo.

A gente está se propondo a ser banda ainda. Parece uma coisa até meio retrô atualmente, tenho a impressão que os projetos estão cada vez mais simples, no número de integrantes, arranjo, musical mesmo. Banda me parece uma coisa mais retrô atualmente, quando artistas sobem no palco só com um intérprete, um performer, e um DJ programando ali atrás. Quando a gente se propõe a colocar cinco, seis ou sete pessoas no palco, tocando instrumentos e tentando avançar com isso, me parece uma coisa meio retrô, mas é assim que a gente aprendeu a fazer música e é assim que a gente vai continuar trabalhando. Então, espero que a banda seja cada vez mais banda.

– Sempre que se fala em Carne Doce, desde o primeiro lançamento de 2014, foca-se muito no casal Macloys e Salma. Os dois sentem vontade ou pensam em fazer algum trabalho musical solo?

Na origem do projeto Carne Doce, todas as canções foram feitas por nós dois (eu e Salma). A medida que a gente foi trabalhando com banda que isso começou a mudar, mas muito lentamente, e espero que isso mude mais rápido. Mas se lançar solo a gente não pensou ainda, em grande parte, por minha causa. Eu sempre percebi as minhas orientações como músico e produtor com um grupo, com uma banda. Foi assim que eu aprendi a fazer música e foi assim que eu aprendi a trabalhar com música, com banda. Eu nunca imaginei essa possibilidade de carreira solo, de me lançar solo ou lançar a Salma fazendo um disco. Isso não me soa autônomo, provavelmente por causa disso que eu falei, uma limitação mesmo. Não acho que eu seja suficiente para poder oferecer toda musicalidade ou tudo que as canções que eu e Salma fazemos oferecem. Trabalhar como grupo é muito diferente de trabalhar com músicos contratados. Eu sei que tem grandes músicos para serem contratados, que trabalham de forma autônoma, arranjadores e tal, mas eu nunca enxerguei esse tipo de trabalho.

– A música “Besta” fala da relação dos artistas independentes com a cena musical independente nacional. Assim como Goiânia, Maringá e região é vista como polo sertanejo. A Circular Alternativa tem o propósito de discutir, mostrar, diversificar, profissionalizar e, de alguma forma, melhorar a cena musical independente em Maringá. Como vocês enxergam essa iniciativa?

Nessa música a Salma fala sobre um sentimento, um chamado que a gente sempre ouviu entre bandas independentes que tem mais a ver com sentimento bairrista, sentimento de lugar, do que um sentimento profissional, uma iniciativa profissional. Essa coisa de “apoie a cena”, “apoie a banda de seu amigo”, “assista ao show”. A gente logo percebeu que isso não fazia sentido, que o objetivo era você conquistar as pessoas espontaneamente, sem ter que pedir para as pessoas que elas gostem de você. Essa ideia de “apoie a cena” não torna nenhuma cena sustentável. Isso é quase uma mendicância, você pedir que alguém goste de você. Isso não tem sentido nenhum. Acho que a Salma tentou dizer isso na letra. Mas é um impulso por profissionalismo, ser profissional na música e não ter que pedir para alguém consumir você.

Eu acho que a iniciativa é louvável, maravilhosa. Esse tipo de coisa que é capaz de provocar e instigar as pessoas. Em Goiânia eu vejo que, se existe alguma coisa que faça alguém acreditar numa cena ou em algum contexto de produção de música independente, tem a ver com os festivais. São festivais que tem mais de 20 anos de existência e a vida desses festivais, na minha visão, é que tornou possível, ao longo desses anos todos, a formação de um contexto em que as coisas se mostrassem minimamente possíveis. Os festivais cresceram, a exemplo do Goiânia Noise, do Bananada, do Vaca Amarela, e eles tornaram possível esse sonho de viver de música. Eu estou a mais de 20 anos vendo esse movimento acontecer aqui e sempre vi bandas do Brasil todo vindo pra cá tocar, bandas internacionais, pequenas, médias ou às vezes grandes vindo para cá tocar. E na mesma medida a gente vê algumas bandas sendo formadas aqui e sendo “exportadas”.

Ao longo desses anos a gente viu bandas que se formaram aqui, que a gente acessava, lugares pequenos, para poucas pessoas, e dali a pouco essas bandas estavam em São Paulo, Canadá, EUA até chegar no que o Boogarins, por exemplo, alcançou hoje, que é daqui, mas passa metade dos anos em turnês internacionais. Tudo isso é muito significativo para gente. Isso tem a ver com esse contexto todo que esses festivais conseguiram criar ao longo desses anos. De tornar a ideia de ser artista independente, de ter uma banda independente, algo realmente produtivo, algo que pudesse crescer e ser suficiente para tocar a vida. Ainda que seja para muito poucos, isso aconteceu.

Salma Jô explica a letra “Besta”

– Vocês são exemplo de projeção nacional quando se fala em autogestão de banda. São responsáveis por produção, comunicação e demais processos de produção e circulação de uma banda independente. Como foi decidido isso entre vocês? Como são separadas as funções?

Essas coisas foram acontecendo ao longo do tempo. A gente foi assumindo devagar as coisas, na medida que a gente foi produzindo. Começou Salma e eu, a gente fazendo as canções e depois convidando as pessoas para trabalhar com a gente e fazer banda. Quando a gente percebeu que a gente tinha uma banda e que era um núcleo criativo e artístico, que pudesse realmente ser o motor da coisa, a gente encerrou ali esse impulso de convidar as pessoas para trabalhar junto. Para o pós (comunicação, produção, agendamento), a gente não está totalmente apto, a gente não está pronto para poder contratar e ser uma coisa maior, uma empresa com gente trabalhando e tal.

A gente é uma microempresa, a gente gere as coisas, a gestão é toda nossa e a gente divide as coisas na banda. Hoje, a Salma cuida de uma parte, eu cuido de outra. O Aderson (Maia) está assumindo outra parte e o João Victor cuida de outra parte e a gente divide as coisas assim. O grande motivo é que a gente percebeu que se a gente trouxesse pessoas de fora para fazer isso a gente acha que não seria muito efetivo. Primeiro, porque a gente não teria muitas condições de remunerar. Segundo, uma coisa que a gente logo percebeu, quando a gente fez algumas parcerias, um ano e meio, dois anos atrás, com agências de venda de shows, é que a gente não era prioridade da agenda das agências, e, ao mesmo tempo, não poderíamos exigir isso delas, porque não éramos os maiores artistas do catálogo. Então, a gente se viu obrigado a aprender a fazer as coisas. Obrigados a aprender a vender show, ser uma empresa, emitir nota fiscal, negociar. Talvez as coisas sejam mais demoradas para gente por isso, porque a gente passa muito tempo aprendendo, errando ou tentando acertar, mas sempre com esse foco na profissionalização. Não sei até quando vai ser assim, mas vejo que tem vantagens.

Como donos do negócio, a gente vê como é que a coisa funciona e, na hora de contratar alguém para trabalhar com a gente, a gente espera que a gente não contrate alguém que vá chegar com respostas ou propostas mirabolantes, porque a gente já sabe como funciona. É importante saber fazer, como a gente está fazendo, mas, por outro lado, tem o desgaste, tem todo um investimento de tempo. É complexo isso, porque a gente é artista, está no palco, a gente compõe, a gente escreve, a gente faz música e ao mesmo tempo faz todo esse trabalho administrativo, executivo e esse trabalho prático. Essas coisas se chocam e, às vezes, a gente se pergunta se uma coisa não está influenciando na outra e impedindo que a gente avance mais numa ou outra frente, mas essa é a nossa condição hoje e a gente ainda não viu um caminho para poder separar ou dividir melhor essas coisas.

Quais são os principais pontos positivos e negativos de fazer essa autogestão?

Eu acho que os principais pontos positivos é que você acaba adquirindo outras habilidades, por bem ou por mal. Você não vai ser só o compositor ou um performer, mas você vai ser o gestor, o agente, o booker, o executivo, e tudo isso é uma oportunidade de multifunção, que eu acho maravilhoso. É uma grande oportunidade de trabalho, de formação. Ponto negativo é que tudo isso demanda muito mais tempo. Se a gente pudesse ser só artista, se a gente passasse os dias e as semanas investindo nosso trabalho em criar, pensar no nosso show, na performance, no corpo, na expressão do corpo e melhor forma de executar uma canção. Enfim, é provável que a gente seria artistas muito mais expressivos, do ponto de vista artístico. Mas também estaríamos muito menos preparados para poder tocar o nosso negócio. Quem poderia estar fazendo isso? Não sei, provavelmente ninguém. Porque o mercado que a gente está inserido não é um mercado estruturado, não encontraria pessoas para fazer isso.

– Para uma banda que é responsável por todos esses processos, qual a importância de selos e festivais musicais?

No nosso caso, bem particular da nossa experiência e da nossa trajetória, selo nunca foi uma coisa relevante, uma coisa importante. Pela observação que a gente tem trabalhado com música independente aqui no Brasil, a impressão que dá é que selo não é algo relevante ou necessário ou que vá oferecer qualquer tipo de estrutura para um projeto de música autoral. Eu não acredito nisso. Felizmente ou infelizmente, eu realmente não acredito em selos. O que um selo pode oferecer que uma banda independente não possa ser? Essa é uma pergunta que eu sempre faço, porque se você se propõe a ser um artista independente, você se propõe a ser artista e ser gestor também. Você precisa saber de tudo um pouco, ainda que você vá contratar ou estabelecer parceria com outras pessoas ou outros grupos, é muito importante que você saiba como as coisas funcionam.

Então, o que um selo pode oferecer que está além do seu alcance? No nosso mercado, eu não sei. Festivais é outra coisa. Festival é outro tipo de trabalho. Eu acho que tem a ver com demanda de tempo e know-how também. Mas, sinceramente, eu não consigo enxergar o que um selo poderia oferecer para o Carne Doce. Isso no Brasil, não sei fora. Imagino que fora é bem diferente. Enfim, vamos discutir melhor e eu espero ser bem provocado nessa mesa sobre as questões dos selos.

Circular Alternativa #1

22 de setembro de 2018

Painel

Os Desafios da Produção Musical Independente
16h, na Sala de Reuniões da Prefeitura (ao lado do Auditório Hélio Moreira

Painelistas: Fernando Dotta (Balaclava Records – SP), Salma Jô e Macloys (Carne Doce – GO) e Edwardes Neto e João Manoel (Stolen Byrds – MGÁ).
Mediador: Marcelo Domingues (Festival Demo Sul – LDNA)

Clique aqui e faça a sua inscrição! 

Shows

Paço Municipal (Pç. Dep. Renato Celidônio – Praça da Prefeitura)

20h | Stolen Byrds (MGÁ)
21h | Carne Doce (GO)

Clique aqui e confirme a sua presença! 


A Circular Alternativa #1 foi contemplada pelo Prêmio Aniceto Matti de Incentivo à Cultura de 2017, Lei Municipal 9160/2012, que é uma iniciativa da Prefeitura Municipal de Maringá, por meio da SEMUC – Secretaria Municipal de Cultura.

 

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