Andar de bicicleta nos possibilita uma incrível experiência de liberdade. Isso mesmo, liberdade!

Foto: Renato Domingos

Quando utilizamos a bicicleta como meio de transporte, necessitamos única e exclusivamente de nossa própria energia para nos movimentar. Isso nos liberta de várias formas, uma vez que outros modais de transporte impõem diversas necessidades para utilizá-los no deslocamento diário.

Outra possibilidade proporcionada por andar de bicicleta é uma maior interação com o ambiente a nossa volta e, consequentemente, uma maior apreciação dele. Isso fomenta o processo de reapropriação desses ambientes pela comunidade, transformando os cidadãos em verdadeiros agentes na democratização do espaço urbano. A ocupação desses locais os torna mais vivos, levando a um aumento de circulação de pedestres, bicicletas e, por conseguinte, a um comércio mais ativo, demonstrando que quanto maior a inserção de pessoas e a utilização do lugar, mais seguros eles se tornam.

Bom pra você, bom para a cidade

Foto: Renato Domingos

O uso da bicicleta traz benefícios como a melhora da qualidade de vida e das condições físicas; a redução dos gastos com saúde por conta da prática regular de exercícios; a redução do impacto ambiental e da poluição urbana; uma maior acessibilidade pelo custo/benefício e um baixo custo de manutenção; ocupa menos espaço nas vias urbanas e reduz os gastos com manutenção da infraestrutura; além de ampliar a vivência e a percepção dos espaços urbanos.

Além desses benefícios citados, há o mais significativo e, talvez, mais importante de todos que é o da independência e libertação do indivíduo na própria sociedade. As mulheres e os homens que utilizam a bicicleta como meio de transporte criam seu próprio percurso, não dependem do tráfego e nem de estacionamentos para se deslocarem na cidade. Desafiam o tempo e o espaço para chegar onde precisam, ao mesmo tempo em que criam tempo e espaço diferentes dos demais, pois são experimentados sob uma perspectiva muito mais ampla. As mulheres então, acima de qualquer expectativa ou paradigma social, desafiam a si próprias e a sociedade como um todo ao utilizarem a bicicleta nos seus deslocamentos diários, enfrentando estigmas inventados por pessoas que temem a liberdade que elas possam vivenciar, quebrando uma série de tabus e passando por cima do simbolismo sexual supostamente inerente à mulher ciclista.

E a mulher utilizar a bicicleta como meio de transporte merece um estudo a parte muito mais complexo do que poderia ser tratado neste artigo, pois vai além do que a maior parte das pessoas possa imaginar que isso realmente significa, do que só elas podem explicar e experimentar no seu dia a dia de lutas infindáveis.

+ Circular TV: Assista o teaser do documentário Vou de Bike: mobilidade urbana e o direito a cidade em Maringá

Em Maringá

Maringá demonstra, a priori, um grande potencial para o uso da bicicleta como meio de transporte no espaço urbano, já que possui topografia plana e ideal para o uso dela. Mas apesar de todos os benefícios apresentados – sem contar aqueles não citados aqui -, as políticas de incentivo à mobilidade urbana com bicicletas em Maringá ainda são escassas. E, quando feitas, são insuficientes, pois não é realizado um estudo de demanda, como aconteceu, por exemplo, com o Plano Municipal de Mobilidade Urbana ainda não concluído. Tudo isso tem fomentado uma insatisfação dos grupos organizados e/ou coletivos dos usuários de bicicleta que procuram seu espaço dentro da cidade. Esta é uma demanda legítima, pois ao se organizar para buscar representatividade e respeito, os grupos demonstram o que ainda não possuem.

Foto: Renato Domingos

Porém nota-se que, mesmo de forma tímida, há um maior espaço para as práticas de esporte ao redor de determinados parques da cidade aos sábados, domingos e feriados como, por exemplo, o Parque do Ingá. Assim, muitos adeptos da bicicleta como lazer ou meio de transporte tem aproveitado essa oportunidade. Porém, o poder público ainda não entende essa abertura como uma oportunidade de gestão para inserir a bicicleta como meio de transporte no espaço urbano de forma sistemática.

Também não é possível deixar de destacar a implantação da ciclovia ao longo da Avenida Brasil, feita em parceria técnica com a ONG (Organização Não Governamental) Ciclo Noroeste que, além de dar suporte técnico, realizou uma série de vistorias nos trechos concluídos que necessitam de alguns reparos e adequações. O projeto dessa ciclovia foi feito pela antiga SEPLAN (Secretaria Municipal de Planejamento e Urbanismo) após constantes reivindicações da sociedade e de alguns movimentos cicloativistas. A medida foi tomada apenas em 2014, mas a demanda é mais antiga que isso, como demonstram as próprias atividades dos movimentos organizados de ciclistas na cidade.

É evidente que a implantação de ciclofaixas de lazer intermitentes em volta dos parques da cidade e a construção da ciclovia na Avenida Brasil são avanços importantes. Contudo, são incipientes e atendem uma camada muito pequena da sociedade, visto que se encontram em regiões centrais e de grande visibilidade. Também cabe ressaltar que não existem projetos dessa natureza a curto e médio prazo nos bairros mais populares da cidade. Ou seja, através desses projetos centralizados, voltados a um público específico, fica clara certa falta de atenção em tender a real demanda da sociedade, dos trabalhadores e da camada popular que mais necessita de meios de transportes alternativos e viáveis.

A bicicleta não vai deliberar todos os problemas de mobilidade no espaço urbano. Porém pode ser uma das principais ferramentas na resolução dessa questão que é encontrada na maioria das cidades contemporâneas.

Foto: Renato Domingos

 Vamos de bike?

Durante minha graduação e mestrado, realizei uma série de entrevistas e trabalhos de campo que proporcionaram dados importantes e, com essas informações, foi possível mensurar como os ciclistas urbanos se sentem ao fazer seus deslocamentos dentro de Maringá. O que foi observado é um sentimento de falta de segurança e de respeito de forma generalizada, que podemos relacionar à falta de políticas públicas de segurança e incentivo a esse meio de transporte.

Foi constatado que 78% das pessoas entrevistadas em Maringá deixam de optar pela bicicleta como meio de transporte porque não se sentem seguras o suficiente para isso. Outro ponto que ficou evidente foi o fato de que as pessoas utilizam a bicicleta mais para o lazer. Ou seja, a maioria das pessoas e não a concebe como meio de transporte ou tem medo de usá-la no cotidiano. Mas é importante destacar que esse sentimento de insegurança no uso da bicicleta é superestimado. Quando estamos no trânsito, é possível perceber – com prudência e atenção – que a bicicleta é um meio de transporte seguro e totalmente viável.

Eu vejo que os últimos anos foram, talvez, os mais frutíferos para os movimentos cicloativistas de Maringá. Temos novas ciclovias sendo construídas, aberturas de ruas para uso da bicicleta como lazer e recebemos uma atenção maior do poder público. Além disso, tivemos a criação de uma ONG preocupada com tudo isso, a CicloNoroeste, que busca representar os ciclistas urbanos de Maringá e região. Esses fatores representam de fato um amadurecimento do movimento cicloativista na cidade, juntamente com a visibilidade proporcionada pelos pedais noturnos cada dia mais crescentes no município.

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