No festival Paraíso do Rock, como o próprio nome diz, é o rock que mantém o norte do line up. Isso pode ser visto em todos os 12 anos que o festival aconteceu na pequena cidade Paraíso do Norte, cerca de 80 quilômetros de Maringá. Com aproximadamente 12 mil habitantes, este pequeno município da região Noroeste do Paraná recebe, anualmente, oito bandas, que fazem do Centro de Tradições Gaúchas São Jorge um verdadeiro paraíso da boa música, da resistência – de todas as formas possíveis – e da celebração e paixão pela cultura

Felix Robatto - Foto Bruno Carachesti
Félix Robatto é uma das atrações da 12ª edição do festival / Foto: Bruno Carachesti

Mas naquele solo paradisíaco toca de tudo: El Zombie (ARG), Siba (PE), Jonnata Doll e os Garotos Solventes (CE), Ultramen (RS), Las Diferencias (ARG), Almirante Shiva (DF), Maciel Salú (PE), Seu Pereira E Coletivo 401 (PB), Muddy Brothers (ES), Replicantes (RS), Juvenil Silva (PE), Expulsados (ARG), Jarrah Thompson (AUS), Molina y Los Cósmicos (URU), Matanza (RJ) e Brian Oblivian e Seus Raios Catódicos (PR) são alguns dos nomes.

Na 12ª edição, que acontece hoje (12) e amanhã (13), no já famoso CTG São Jorge, a história não poderia ser diferente. Regados a cerveja araucária, quentão e pastel, o público irá assistir esse ano: Histeria (PR), Chinelada (PR), Eddie (PE) e Camarones Orquestra Guitarrística (RN), no primeiro dia. Triângulo das Bermúsicas (PR), Buenos Muchachos (URU), Félix Robatto (PA) e Comunidade Nin Jitsu (RS). 

“Mesmo com todas as diferenças, é possível se identificar. O Brasil tem um monte de cultura diferente, mas a gente se identifica.” Essa é uma das funções que o músico paraense Félix Robatto identifica em seu trabalho. Essa também é uma das funções dessas duas noites de música do Paraíso do Rock:  juntar punk, maracatu, samba, rock, lambada, funk, carimbó, guitarrada e sair da padronização do sertanejo, que inunda toda a região. 

“Se fosse para fazer um festival com músicas que a gente ouve no dia a dia, a gente faria um festival sertanejo. A ideia é exatamente o contrário, é fazer com que as pessoas ouçam coisas novas e se interessem por ritmos diferentes, mas dentro do rock. Essa é nossa ideia”, decreta, Carlos ‘Beto’ Vizzotto, um dos organizadores do festival.

Para sentir um pouco do que vai rolar hoje e amanhã, fizeram uma playlist no Spotify: Paraíso do Rock 2019

 

O Paraíso do Rock é realizado pela APMI/CEMIC (Associação de Proteção à Maternidade e à Infância), entidade responsável pelo contraturno escolar de alunos das escolas públicas de Paraíso do Norte. Todo o  lucro obtido durante o festival é destinado para essas atividades.

Os ingressos podem ser comprados antecipadamente no site Sympla ou na Cervejaria Araucária. Como se trazer banda do Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Uruguai não fosse o bastante, o festival ainda faz o preço do ingresso por R$ 30, para os dois dias, e R$ 25 para cada um dos dias.

Serviço

Paraíso do Rock 2019 – 12ª Edição
Data: 12, 13 e 14 de julho
Local: CTG São Jorge | Paraíso no Norte (PR)
Clique aqui para comprar o ingresso.

Félix Robatto / Foto: Bruno Carachesti

Para conhecer um pouco mais do paraense Félix Robatto (37), batemos um papo com o barbudo da guitarrada/lambada/tecnobrega contemporâneo, por telefone, um dia antes do último ensaio, em que ele fecharia um show especial para apresentar por aqui. Uma aula de música paraense, informações sobre a carreira, ideias sobre produção e profissão artística em épocas de zumbis e Bolsonaro, sobre o grande Carlos Eduardo Miranda, Gaby Amarantos, “Dark Side Of The Moon” em ritmos amazônicos e muito mais. Nos vemos no paraíso!

Escute a entrevista com Félix Robatto na íntegra:

Leia a entrevista com Félix Robatto:

1) Como está o show para o Paraíso do Rock?

Eu estou com um power trio, é muito louca a minha banda, porque é guitarra, percussão (Ytanaã Figueiredo) e bateria (Adriano Sousa). Os baixos eu gravo, faço uma pré-gravação dos baixos e dos sintetizadores. Gravo, disparo baixo e sintetizador e batera, percussão e guitarra toca valendo no show.

Esse é o formato. Estou fazendo um show diferente para apresentar no Paraíso do Rock. Vou flertar um pouco com o rock, tocar uns clássicos de surf music, mas na verdade eu vou terminar de formatar esse show hoje. Vou fazer o último ensaio amanhã (11/07). Como eu faço festa toda semana (Lambateria), eu tenho um repertório de mais de três horas e sempre tento excluir alguma coisa, mas agora vou te que excluir muita coisa. Mas o que eu tenho certeza que vou tocar são as minhas músicas mais agitadas, tanto do “Equatorial, Quente e Úmido” (2015) quanto do “Belemgue Banger” (2016), vou tocar Mestre Vieira, quero que a galera ouça Mestre Vieira, vou tocar The Shadows, vou fazer um mashup com algumas coisas daqui.

Fizeram um pedido de uma surf music que eu já gravei mas não sei se vou tocar, não sei se encaixa. Porque eu não gosto de ficar tocando uma música de cada vez, sabe? Gosto de fazer uma atrás da outra logo, para não ter tempo da galera nem respirar. Mas, basicamente, vai ser isso: guitarrada, cumbia, lambada, vou mandar uma surf music, vou brincar com a galera, improvisar alguma coisa com a galera. 

Eu estou muito ansioso para tocar lá. Ansioso mesmo, de verdade. Porque eu tenho certeza que é uma galera bacana. Quando você vê pela atitude, pela história, pelo posicionamento do festival, você já vê que é uma galera especial ali.

2) Mesmo quando você já tocava no La Pupuña, que era considerada uma banda de rock, você já era um grande entusiasta e divulgador da música paraense. Aparentemente, é cada vez mais. Como você avalia a cena musical do Pará atualmente?

Eu acho uma coisa muito curiosa a música do Pará. Parece que se resume em poucas coisas, como o carimbo, guitarrada, tecnobrega, mas apesar de parecer ter poucas influências, poucas fontes, todo mundo faz diferente. Se tu fores ver cinco artistas que fazem guitarrada, nenhum faz igual. Tu pegar a galera do tecnobrega, ninguém faz igual também.

Belém tem uma coisa muito curiosa, que é esse invencionismo, que é as pessoas quererem fazer do seu jeito, quererem inventar alguma coisa. É um costume nosso. Não é algo cabeçudo, que o cara “tem que inventar”, não. É algo da cultura mesmo, da gente querer fazer algo diferente. Acho que isso vem desde os grupos de carimbo. Você vai pegar os grupos de carimbo de antigamente, também nenhum é igual. Vai pegar o pessoal do interior, que usa, por exemplo triângulo. Aí vai pegar um pessoal de carimbo aqui da região, que usa tambor de candomblé. Alguns usam uma caixa, que é parecida com caixa de bateria, mas é artesanal.

A música do Pará para mim é isso, é um grande caldeirão. Um grande caldeirão de ideias, de misturas. Eu acho que até o tecnobrega vem um pouco disso, o cara resolveu pegar um dia a música “popularesca”, um brega, e colocar as influências dele do house, da música eletrônica, e transformou. A música paraense está cada vez mais assim, e mais ainda agora. Porque agora as pessoas estão conhecendo outras bandas, que não são só bandas que tocam coisas daqui. Tem o Molho Negro, que é um rock pesado. Strobo, que é uma dupla de música eletrônica, que flerta bem pouco com a música regional.

Sempre que aparece um artista paraense com o trabalho bem formatado, bem trabalhado, as pessoas se surpreendem, porque enxergam que é mais uma coisa diferente. Eu não sei se um dia, se a música paraense chegasse a ser uma música de massa, se ela manteria essa invenção ou entraria em um padrão.

 

3) Por aqui, a guitarrada, carimbó, tecnobrega e outros gêneros do Pará e da região amazônica não são amplamente divulgados. Como você sente a energia do público quando faz shows pelo Sul e Sudeste?

É engraçado, porque apesar das pessoas não conhecerem a história, não conhecerem os expoentes da música, não terem ouvido esse tipo de música, é música para dançar, é música forte. Tecnobrega tem a mesma célula rítmica do surf music, só que com outra proposta. Mas a célula rítmica é a mesma. O carimbó raiz tem uma aproximação com samba. E guitarrada é a mãe da lambada e lambada já tocou em todo lugar do mundo.

As pessoas, quando ouvem a guitarrada, já sentem a semelhança com a lambada. As pessoas já sabem como é que remexe, já sabem como é que dança, já não é uma coisa tão estranha de dançar. As pessoas só não conhecem a história, não entendem o que se passa na cabeça do artista para estar fazendo aquilo, como foi chegar naquilo. Mas na maioria, as pessoas pouco se importam com isso, só querem dançar. Mas ninguém estranha. 

Mas santo de casa não faz milagre, né? Antigamente, era mais fácil estranharem aqui do que fora de Belém. Na época do La Pupuña, quando a gente começou a querer misturar e querer fazer essas coisas, era mais fácil estranharem aqui, tipo: “Que porra é essa que estão fazendo? Por que não tocam música igual toca na rádio? Por que não fazem um esquema meio padronizado, para tocar na rádio?”

Hoje em dia não. Fui tocar uma vez em Presidente Prudente (SP), ninguém conhecia nada, mas todo mundo começou a dançar. No final, pessoal chegava perguntando de onde eu era. Falando da música regional, pelo fato da música ser quente e dançante, as pessoas se identificam para dançar, entendem logo qual o pretexto, qual o motivo. Depois elas vão ouvindo as particularidades e as coisas exóticas: “Orra, música toda na guitarra, mas sem distorção, parece que é um choro, para dançar” ou “ah, essa música é um brega, mas é eletrônico”, “essa música é interessante, parece um samba mas não é”, então eu acho que a música paraense é isso.

 

4) Apesar de não ter uma ampla divulgação, todos conhecem “Ex Mai Love”, que você tocou e produziu no disco “Treme” (2012), da Gaby Amarantos. Como foi trabalhar nesse disco e tocar na banda dela, que teve e ainda tem uma grande repercussão?

Toquei quatro anos com ela, na época do “Treme” (2012). Fui meio que escalado pelo [Carlos Eduardo] Miranda. Na época, eu saí do La Pupuña, tinha montado uma outra banda, que era o Félix e Los Caroços, que era praticamente eu e a sobra da Pupuña, e o Miranda falou para eu tocar com a Gaby que ele ia produzir.

Aí, no final das contas, ele estava meio agoniado e sem tempo e me botou para produzir junto com o DJ Waldo Squash, que eu só conhecia por ouvir falar, mas tive contato com ele nas gravações e hoje a gente é muito amigo, muito parceiro. Aí produzi o disco, que tinha a ideia de pegar o tecnobrega local, que é muito particular.

Tecnobrega tem uma cultura, que eu comparo um pouco de longe com a do hip hop, porque tecnobrega aqui não é só a música, tem a cultura. Tem a aparelhagem, que é o principal meio de divulgação, é o motivo para as pessoas fazerem tecnobrega, que é para tocar na aparelhagem. Tem o DJ, tem a festa de aparelhagem, a cultura da festa, tem o estilo, tem tudo. Não é só a música. Talvez o tecnobrega não pegue em outros lugares como aqui em Belém por conta disso, porque tem toda uma cultura do tecnobrega.

A ideia era essa, que o Miranda Pegou: “Então, pega o tecnobrega e façam ele um pouco mais globalizado, misturando com outras coisas, falando de outras coisas, também pode fazer como é daí, com as particularidades daí, mas misturando, sem ficar preso, sem pensar em tocar só em aparelhagem.” Tanto é que no “Treme”, a gente teve que fazer versões para aparelhagem daqui, versões para tocar aqui em Belém, porque ele é diferente, o andamento é diferente. Algumas músicas a gente precisou fazer essas versões próprias para tocar em Belém. 

A ideia era globalizar e foi isso mesmo, funcionou muito. A gente conseguiu emplacar umas músicas, que a gente não esperava, outras a gente viu de cara que ia funcionar. Teve uma mistura legal e o disco foi indicado ao Grammy Latino, em duas categorias. Para gente foi muito bacana, foi uma experiência muito bacana. Eu acho que encorajou todo mundo a inventar, querer fazer mais coisas.

Depois de quatro anos com a Gaby, eu vi que estava na hora de começar a fazer minhas coisas, porque eu sou muito inquieto, muito muito inquieto. Aí eu saí de lá e fui gravar meu disco solo, porque eu já tinha gravado dois discos com o La Pupuña e mais um disco, que não é um disco oficial, mas é um disco que muita gente chegou a ouvir, que é o “The Charque Side Of The Moon” (2007), que é o “The Dark Side Of The Moon” (1973), do Pink Floyd, todo em ritmos regionais. É produção minha.

Em 2014 eu saí lá da produção com a Gaby e comecei a fazer meus discos solos e já lancei três. Estou preparando o quarto, que já era para ser lançado, mas houve um incidente aqui em casa, que entraram e levaram meu computador com todos os arquivos do disco, que estava prestes a lançar e tive que regravar tudo de novo. É o pesadelo de qualquer artista. E tem meu DVD, que vou lançar agora esse ano, vou gravar em outubro aqui em Belém.

 

5) Quão importante foi o trabalho da Gaby para a sua carreira e para a música do Pará em geral?

Vou falar primeiro da música do Pará. Eu acho que influenciou a galera a fazer música pensando em Belém, estando em Belém, com as características daqui, sem se preocupar em inventar. Como eu falei, a gente já é de inventar, quando chega uma artista e lança um trabalho desse, como o “Treme”, e funciona, que influencia muita gente a inventar, não ter vergonha da autenticidade, das suas particularidades, e não só para as pessoas de Belém, mas de outros locais também.

Acho que o “Treme” foi muito importante pra cá. Foi uma reviravolta na vida da Gaby, eu que já conhecia ela, toquei com ela em uma banda em 1998, uma banda baile, vi o começo dela, vi as outras bandas dela, a evolução, até chegar onde ela chegou hoje. Eu vi que foi merecido. Ela se abdicou de muita coisa, ela acreditou em muita cosia, que eu não sei se eu meteria a cara como ela meteu. Admiro muito isso e foi muito importante para muita gente.

Para mim, foi importante porque foi experiência, né? Pegar uma sequência de show e circular o Brasil todinho, viajar para a Europa, fazer programa de TV, tocar num Faustão, num Caldeirão do Huck, ver como que funciona. Como eu era o diretor da banda, pessoal vinha comigo falando que precisava tocar um minuto e trinta só, no outro programa, um minuto e dezessete. Aí o cara tem que se virar para fazer isso. Foi uma experiência muito válida para mim. Em nenhum momento foi negativa. E conhecer gente. Ela me influenciou também a meter o pé e ir fazer minhas coisas. Claro que o apelo das minhas músicas é bem diferente, mas acho que influenciou a querer fazer meu som, meio que saber a pegada que eu queria fazer.

 

6) Essa história do Miranda e esse disco que ele produziu é mais um exemplo da genialidade dele, né? Pegar uma artista até então desconhecida para fazer o mesmo som que ela fazia, mas tentar dar uma globalizada.

Miranda não sacava só de música. Ele sacava de formar equipe. Ele sabia como é que ele queria, mas para ficar daquele jeito ele sabia que precisava chamar fulano, fulano e fulano. Ele era muito bom nisso. Chamava e sabia chegar com cada um e, do jeito dele, dar uma apertada para ver se saía alguma coisa. Ele chegava para mim e falava que queria tal coisa, aí chegava para o Waldo, eu não sei o que ele falava com o Waldo, mas ele falava outra coisa, aí falava outra coisa para a Gaby. Ele era meio que um técnico de futebol, sabia escolher o time e sempre escalava o time certo. E tinha a onda psicológica também, que ele sabia jogar a onda psicológica do jeito dele com a galera, para tentar extrair o melhor da galera. Mas ele sacava muito de música.

Às vezes o pessoal chega e pergunta se ele não sacava de música, não sabia fazer harmonia. Ele não precisa fazer isso, é que nem técnico de futebol, não precisa pegar na bola mais, é só escolher o time e dizer como time tem que jogar. O Miranda era tipo isso mesmo. Ele deu muita força para a nossa música e para o meu trabalho. Ele não chegou a produzir nada meu, mas ele sempre deu dicas. Sempre falava para eu ouvir algumas coisas, eu ouvia e quando percebia já estava com uma sementinha na minha cabeça, já estava flertando com aquele negócio que ele mandou eu ouvir.

 

7) O rock sempre esteve presente no seu trabalho. Participou da banda La Pupuña, gravou o The Charque Side of The Moon, por exemplo… 

A surf music é o que eu mais ouço. O “The Charque Side..” é porque eu sou fã de Pink Floy e foi uma coisa de brincadeira, que eu resolvi fazer no estúdio. A gente tocava umas versões de Pink Floyd no show, mas não era do “Dark Side”, a gente tocava “Shine On You Crazy Diamond” no show em forma de guitarrada.

Quando eu comecei a gravar umas versões, eu descobri que tinha o “Dub Side Of The Moon”. Então como eu descobri que tinha essa versão eu resolvi fazer as versões. Mas foi tipo assim, “já fizeram, então vou fazer também”. Estava meio no meio das gravações, aí começamos a produzir, sem preocupação nenhuma, e começamos a convidar as pessoas para participar. Tem muitas pessoas participando ali, tem a Gaby Amarantos, inclusive. Tem o Mestre Vieira, Pio Lobato, Manezinho do Sax, grupo de carimbó raiz daqui, Os Baioaras.

A gente chamou uma galera para participar, mas sem pretensão nenhuma, era mais para mostrar para os amigos.  Mas aí inventamos de colocar na internet e viralizou na época. Hoje eu acho que iria viralizar muito mais, na época só existia só Orkut eu acho, foi em 2007, mas começou a ter em todo lugar, artista grande falando sobre, dizem que chegou até nos caras. 

Eu acho engraçado como as coisas acontecem. A gente se empenhou bastante. A gravação não tem muita qualidade, a gente não pagou um estúdio para gravar isso, a gente foi gravando com nossos recursos, era uma coisa bem precária mesmo, usava o mesmo microfone para gravar várias coisas. Mas até hoje eu recebo proposta para gravar de uma forma melhor para lançar oficialmente. Recebi de gravadora grande e coisa assim.

Eu vou deixando passar para quando bater a liga eu meter a cara, até porque eu estou com os arquivos aqui todos abertos. Eu tenho as vozes, tenho as guitarras do Mestre Vieira, que já faleceu, tenho tudo aqui. Hora que eu me invocar, eu pego, vou para frente do computador, agora eu consigo gravar com uma qualidade um pouco melhor, vou meter as guitarras, baixos e tudo, para ficar mais legal. Mas no momento é só vontade, tem outras coisas para fazer antes.

 

8) Você disse que ouve muito mais surf music. O que costuma ouvir?

Eu ouço muito surf music. Gosto muito de The Shadows, The Ventures, Beach Boys, Dick Dale. Na verdade, eu ouço de tudo, mas eu costumo ouvir muito as mesmas coisas. Ouço muito surf music por causa dos timbres e com a semelhança com a guitarrada. Não digo que a guitarrada é parecida com a surf music. Não é parecido, mas eu sempre comparo, porque são músicas instrumentais de guitarra para a galera dançar. Só que uma é lá na beira do mar, na California, e outra é aqui na beira do rio, na Amazônia.

A guitarrada é música de ribeirinho, os principais artistas de guitarrada… Mestre Vieira, que é o criador, o mestre dos mestres, é um cara que morava na beira do rio, que fazia música ali, pegava a canoa e barco quase todo dia. É meio como os caras que moravam na beira da praia antigamente, que começaram a fazer música.  Não tinha nem energia elétrica na cidade dele, ele ganhou uma guitarra, botou corda de violão na guitarra e com a ajuda de um padre ele conseguiu pegar um aparelho de rádio e transformou em um amplificador, pegou uma bateria de caminhão para alimentar. Em uma cidade que não tinha energia elétrica ele começou a tocar guitarra, cara. É uma coisa louca. Eu sempre comparo a guitarrada com a surf music por causa disso.

A guitarra “limpa” (sem efeitos) também. Guitarrada usa muito a guitarra “limpa”, assim como boa parte das músicas do surf music. Ouço muito cumbia peruana, que tem muito a ver com a guitarrada. Acho que é uma das influências também, porque como a gente está perto de vários países da América do Sul e do Caribe, as pessoas conseguiam sintonizar as rádios aqui antigamente. Até hoje, no interior, se você pegar um rádio e ficar procurando frequência ainda acha as frequências do Caribe, de países vizinhos, foi meio assim que nasceu a lambada. 

O meu DVD, inclusive, vai ser um minidocumentário sobre lambada e mais o show. Já gravei a parte do minidocumentário e pretendo lançar na internet antes do show, e fala um pouco disso sobre a influência dos países vizinhos na nossa música.

 

9) Esse DVD, “As Origens da Lambada”, vai ter músicas próprias e músicas de resgate, de pesquisa?

Na verdade, eu ia fazer só o show com convidados. Mas depois eu pensei que, se eu estou falando da origem da lambada, em vez de chamar convidados eu vou fazer 26 minutos de documentário, entrevistando as pessoas que participaram efetivamente do surgimento da lambada aqui no Pará.

Entrevistei os produtores da época, entrevistei o cara que descobriu Mestre Vieira, entrevistei o cara do estúdio, entreviste o Carlos Santos, que é um radialista que era o dono da gravadora Gravasom, entrevistei Mestre Solano, Pinduca, porque a primeira lambada gravada, com nome de lambada mesmo, é de Pinduca, de 1976.

Entrevistei muita gente, entreviste Luiz Caldas, que é baiano. O Pinduca falou muito dele, que quando ele ouviu lambada tinha sido por causa dele, que influenciou o axé. Aí fui entrevistar Luiz Caldas e ele confirmou tudinho, isso que eu achei do caralho. Porque eu pensei que a galera fosse meio que se desmentir em algumas coisas, mas não, cara. Foi uma coisa maravilhosa.

 

10) Você toca por muitos festivais do Brasil, há muito tempo, tanto com La Pupuña, Gaby ou em carreira solo. Como qualquer outro festival pelo Brasil, o Paraíso do Rock também tem sofrido com cortes no setor cultural. Você nota essa diferença na produção dos festivais? 

Com certeza. Agora está sendo pesadelo. É um grande de um pesadelo para a nossa cultura. É engraçado como esse novo governo veio com um papinho furado de Lei Rouanet, que é para valorizar os artistas menores, mas é uma grande de uma burrice. Eles só estão tirando dos menores, além de estarem tirando dos grandes também. Na verdade, são dois mercados diferentes e o que faz os artistas ficarem grandes são esses festivais relativamente menores.

Eu também faço festival aqui em Belém, mas, por ser um festival jovem, a gente não sentiu tanto o baque financeiramente, porque a gente nunca foi de pegar muito patrocínio, mas a gente sentiu o baque na cabeça das pessoas. Tinha gente frequentadora que, agora, parece que virou contra, só por causa de uma política de alienação mesmo.  Alienação da burrice. Parece um apocalipse zumbi mesmo, para transformar as pessoas em rudes, pessoas rudes em relação a cultura. Eu estou sentindo muito, porque o número de festivais está caindo, os festivais estão fazendo produções menores, estão suando a camisa demais para fazer, sempre com o risco de não ter festival.

Estou estranhando muito. O foda é que não dá para esperar de governo, infelizmente. Balançar essa árvore não cai nada. Tem que balançar, tem que derrubar, mas dificilmente vai cair alguma coisa dela de bom. Infelizmente, eu acho que as pessoas vão te que se adaptar e se unir mais ainda, se virar para as pessoas acontecerem, porque também não pode deixar de acontecer. 

 

11) Eu acho que o Paraíso do Rock está exatamente nessa de se adaptar e continuar tentando, porque deixar de acontecer não pode.

E ele [Beto Vizzotto, um dos organizadores] é um idealista e apaixonado por isso. Eu acho que esse é o especial que estou falando. As pessoas vão ter que dar seu jeito para não deixar de fazer, porque quando deixa de fazer parece que perdeu, que foi derrotado. Eu tenho um festival novo, que vai para o terceiro ano agora, um festival de música paraense, Lambateria. A gente sabe como é. A gente fez os dois primeiros anos com um custo de 200 mil reais, foi todo pago pela bilheteria, não tivemos apoio. Era toda hora olhando no aplicativo para ver o quanto estava entrando, para a gente poder ficar tranquilo, e aquela acidez no estômago a festa toda, com medo. No final deu certo, mas é isso. Tem que encorajar e meter a cara mesmo.

Paraíso do Rock, eu sei da história. Logo quando entraram em contato comigo, já vi tudo e é do caralho. Eu tenho certeza que tudo isso passa para o artista que vai participar do festival Quando ele está no palco, ele não está ali só tocando, ele está orgulhoso, está motivado, está afim de agradecer musicalmente o momento, todo aquele esforço que está sendo feito para tudo aquilo ali acontecer. 

 

12) E como é, para você, músico, enfrentar esses ataques que o governo Bolsonaro tem feito à classe artística? 

Esse governo é tão covarde que, se for parar para ver, ele não ataca, ele manda os outros atacarem, manda as pessoas próximas atacarem, manda o público atacar. A gente que faz festa semanal aqui em Belém, eu falo no palco, a gente tem nosso posicionamento político no palco, até porque a gente filtra nosso público. E quem vem bater de frente com artístico não é político, cara, é o próprio povo. Como eu falo, é um exército de zumbis. É foda, até parente próximo da gente fica falando merda, sobre coisa que nem sabem que estão falando, mas está falando porque recebeu no WhatsApp.

O que a gente sente mais é isso, a ideia do menosprezo, do menosprezo ao artista. A ideia de que o artista mama em teta, “ah, ainda bem que acabou isso, porque eles estavam ganhando dinheiro”. Como se a gente estivesse ganhando dinheiro de graça para pagar as contas e não gerasse emprego e não tivesse nada envolvido. E como se a gente não fosse obrigado a apresentar um trabalho de volta. Como se você não tivesse responsabilidade nenhuma com aquele dinheiro. Isso que é o maior absurdo! Porque é um governo que não dialoga com quem não puxa saco, com quem não é enganado. Ele vê que tem uma pessoa com um mínimo de esperteza, eles já não dialogam, porque têm medo. Governo de frases prontas, um governo para enganar muita gente mesmo.

A gente sente muito nisso, sente do público. Parece que surgiu do nada, parece que foram saindo do esgoto as pessoas mais preconceituosas, umas pessoas mais rudes em relação a cultura. Claro que sempre existiu, não foi o governo que fabricou, mas o governo encorajou essas pessoas a terem voz, perderem a vergonha de falar merda. “Vai lá, pode falar que está tudo certo”, tipo diabinho falando no ombro dos caras mesmo. A gente sente muito isso, essa falta de respeito com a cultura, com a arte. Parece que eles não têm remorso nenhum de não apoiar o artista. Agora, o João Gilberto morreu e o cara se recusou a fazer luto.

Os senadores agora que conseguiram fazer três dias de luto oficial, o Randolfe Rodrigues, sei lá. Mas depois de três dias que o cara morreu eles vão fazer o luto, porque o presidente se recusou a fazer. Recusous porque não foi quem votou nele, mas vê o cara lá, MC Reaça, que se matou depois de espancar a namorada, o cara faz um negócio no Twitter falando vá em paz, meu amigo e não sei o que. É o desprezo mesmo pela cultura. Ele não tem remorso nenhum em desprezar a cultura. O povo que apoia também perdeu o remorso e não se toca que é tudo interesse. É ignorância mesmo. A gente sente muito isso, no dia a dia sempre tem um, mas a gente nunca deixa de falar. 

 

13) “Tecno Surf Brega” é o quarto disco, esse que estava pronto e foi roubado. Quais as novidades desse trabalho?

É um disco instrumental, 90% instrumental. Os outros não têm diretamente o tecnobrega, apesar de ter algumas coisas eletrônicas. Esse vai ser um disco de tecnobrega, solado com guitarra, na pegada surf music mesmo, flertando com algumas coisas daqui, da cultura paraense.

É um disco diferente, as pessoas que ouvirem, por ser instrumental, vão se tocar tardiamente que sou eu (rs). É um disco que não compete com meus outros discos, é instrumental, são trilhas instrumentais diferentes do que eu costumo tocar no show. São coisas que eu sempre tive vontade de fazer, coisa que eu espero que alguém faça, mas a galera está partindo para outra onda, aí eu falo: “poderia ter feito isso. Sabe de uma coisa, vou fazer”.

É como meu disco infantil, “Guitarrada Para Bebês”, que eu peguei temas de guitarradas bem clássicas do Pará, com novos artistas também, e fiz versão de caixinha de música. É engraçado porque é um disco que vende bastante aqui e o pessoal escuta bastante na internet. Galera até cobra show, mas não tem como fazer esse show, é impossível. Acho que é igual “Tecno Surf Brega”, para galera ouvir mesmo. Vai ter muito sintetizador, bateria eletrônica, muita guitarra, guitarra nervosa. Tem até uma música que eu já lancei, que chama Dois na Moto. É naquela pegada ali.

Aquela música é totalmente diferente das outras que eu faço, mas é a pegada do disco. É o momento, futuramente vou fazer outras coisas mais diferentes, já estou com ideia na cabeça. Mas chega no show é para botar a galera para dançar lambada, guitarrada, com uma guitarra nervosa.

COMENTÁRIOS

LEIA TAMBÉM

POCKET

7ª edição do Festival de Inverno tem música, arte, roteiros turísticos e gastronomia no Centro Histórico de Curitiba

São oitenta atrações para curitibanos e turistas de 18 a 27 de Julho.
POCKET

Festival Paraíso do Rock, lambada, funk, guitarrada e maracatu

Festival de Paraíso do Norte completa 12 anos de boa música, resistência e celebração da cultura
POCKET

Semana das Artes e da Cultura inicia segunda etapa

Apresentações gratuitas de música, teatro, dança e contação de histórias seguem do dia 14 ao dia 21 de julho
POCKET rubia divino no estudio showlivre

Rubia Divino lança álbum ao vivo

Álbum foi gravado pelo Estúdio Showlivre e está disponível nas plataformas de streaming