Marcelo Vogelaar

O nome expressa incerteza, hipótese. Algo que manifesta a ideia de tempo com sentido futuro, mas com foco no passado. Mas o disco “Futuro do Pretérito” (2017), terceiro da banda paulista Garotas Suecas, é exatamente o contrário. Este “Futuro do Pretérito” revela certeza e é atual, com as cabeças fixas no presente. E com futuro certo o quarteto se apresenta neste domingo (4) em Maringá, na festa Será o Benedito?, na Casa da Vó Bar.

Garotas Suecas toca ao lado da banda maringaense Dedo na Quina e o evento ainda conta com discotecagem de Fernanda Inocente e Tony G. Os ingressos podem ser comprados antecipadamente, no próprio bar, por R$ 10. Quem adquirir convite antecipado tem direito a estacionamento de graça e concorre a um baldinho com cinco long necks de Heineken.

Em uma nova fase, após algumas modificações na formação do grupo (saída de Guilherme Saldanha e Sérgio Sayeg), Garotas Suecas se apresenta com um formato clássico de banda de rock: guitarra, baixo, bateria e teclado. E não são apenas os shows que demonstram a consolidação da formação horizontal, com quatro compositores, quatro cantores e quatro instrumentistas. Lançado em outubro do ano passado, “Futuro do Pretérito” apareceu em quase todas as famosas listas de fim de ano, em que se elegem os melhores discos e músicas.

O Garotas Suecas é Irina Bertolucci (voz e teclados), Tomaz Paoliello (vocais e guitarra), Fernando Perdido (vocais e baixo) e Nico Paoliello (vocais e bateria).

Com um álbum menos referente e reverente, como eles mesmos disseram, o grupo expõe diversos assuntos nas 12 canções que integram o trabalho. Em certos momentos, espinhosos, em outros, apenas divagam sobre alguns dilemas sentimentais e exaltam frutas tropicais.

Os momentos espinhosos, com dedos direto nas feridas, destacam-se em “Não Tem Conversa”, composta por Pedro Abramovay, musicada pela banda e declamada por Irina. A canção aborda questões como racismo, aborto, meritocracia, ética e os privilégios dos homens brancos heterossexuais.

Ou em “Angola, Luisiana”, quando Tomaz utiliza o nome de uma prisão norte-americana construída em cima de fazendas escravocratas – e que hoje tem uma população carcerária majoritariamente negra, assistida por policiais majoritariamente brancos – para fazer uma comparação da escravidão com o sistema carcerário.

“É a necessidade, a gente não podia gravar um disco neste momento e fingir que nada estava acontecendo. A gente pensou bastante nisso e fizemos letras mais explícitas, diretas e todas em português. A arte não precisa sempre ser instigante, mas ser instigante é importante, para abrir debates que devem ser falados naquele momento”, explica Nico.

A nova identidade da banda, com uma formulação mais sólida, foi encontrada durante o processo de produção do disco, em que todos tomaram as rédeas, terceirizando apenas a masterização. Depois de compostas e muito bem ensaiadas, as faixas foram gravadas no estúdio Freak, do qual Nico é sócio. Ele também foi responsável por pilotar a mesa de gravação e pela mixagem. “Futuro do Pretérito” foi lançado pelo selo Freak.

E para manter tudo “em casa”, as participações foram escolhidas pela amizade, intimidade e facilidade em tocar juntos. São eles, o percussionista Matheus Prado (Projeto Coisa Fina), colaborador de longa data da banda, o saxofonista Filipe Nader (Música de Selvagem e Trupe Chá de Boldo), os guitarristas Marcelo Vogelaar (Holger) e Marcelo Lemos (Vruumm e Projeto Coisa Fina) e o tecladista Andre Bruni (Mel Azul e Cupin).

Por telefone, no estúdio Freak, Nico Paoliello conversou com a Circular e contou um pouco sobre a produção de “Futuro do Pretérito”, das letras críticas, da situação atual da política e dos artistas, da nova fase, influências e, claro, sobre o show de domingo. Confira.

Futuro do Pretérito não só é o nome do disco, mas também é o nome da faixa de abertura. Por que a escolha deste nome para o trabalho? Qual o significado?

Nós achamos que a música “Futuro do Pretérito” representava bem a cara do disco, em geral. E também como escolhemos a música para ser a música de abertura, achamos legal ser a faixa que daria nome ao álbum. A música critica um pouco da questão política do país, o jeito que o país está, em uma onda de retrocesso, tanto de direitos (da sociedade) como um retrocesso político, além de muitas visões extremistas ressurgindo, por todos os lados. Posições muito polarizadas e fundamentalistas. Então é sobre isso, sobre as pessoas que acham que o futuro é o passado. E também tem o sentido do tempo verbal, que é o tempo do “faria”, “teria”, “seria”, que é um tempo verbal da hipótese. O que teria acontecido se tivéssemos feito diferente.

Como foi o processo de produção de “Futuro do Pretérito”?

A gente produziu no estúdio Freak. Cada autor compôs as músicas sozinho, mas a gente ficou bastante tempo elaborando as músicas juntos, em ensaio. Quando a gente sentiu que estava pronto, a gente foi. Começamos a gravar no começo de 2017, em janeiro, então está fazendo um ano. A gente fez o trabalho com bastante calma, no nosso tempo e fizemos todas as músicas tocando juntos. O baixo e batera de praticamente todas as músicas deram certo nessas primeiras gravações, com toda a banda. Em algumas, a guitarra também. Isso fez com que o disco ficasse bastante com uma cara de banda mesmo, tocando juntos, e acho que isso foi bacana. Foi produzido pela gente, então em algumas músicas resolvemos colocar saxofone, sintetizadores, e fomos decidindo o que colocar em cada uma. Convidamos alguns amigos mais próximos para participar em algumas faixas, pessoas que temos intimidade para tocar. Ficou um disco bem “lá em casa”, no sentido de que foi a gente que tomou as rédeas.

E como foi para a banda tomar as rédeas de todo o processo de produção?

Foi bem bacana. Eu acho que por ser o terceiro álbum long play, a gente já estava num estágio mais maduro, estávamos prontos para fazer isso. Eu, por exemplo, tenho o estúdio (Freak) desde 2010, mas quando lançamos o “Feras Míticas” (2013) foi bom não ter feito dessa forma, não estava totalmente…. Ah, você vai evoluindo, ganhando experiência, qualidade e aquela talvez não fosse a hora. E também, a gente não tinha alguém que tivesse oferecido, “vamos fazer o disco com vocês” e tal, e nem ficamos correndo muito atrás de produtor. Não que a gente não queira, mas a tínhamos condições de fazer e estava a fim de ver no que ia dar um trabalho sendo nosso mesmo, com a nossa produção. Achei que era um momento oportuno para fazer esse teste. Não quer dizer que a gente não vá trabalhar nunca mais com produtor, a gente acha super legal trabalhar com produtor. Mas achamos que, nesse momento da banda que a gente vive, tinha que fazer esse tipo de trabalho.

“Esse momento da banda” e o fato de vocês pegarem as rédeas de quase todo o trabalho tem a ver com a mudança de formação que a Garotas Suecas teve?

Tem também, com certeza. A gente agora é um quarteto e ficou um negócio mais cru. A gente queria fazer um disco mais cru também. Até quando ouvimos o disco pronto, percebemos que nem tinha ficado tão cru quando imaginávamos no começo. Mas isso é coisa de “fazer disco”. Você vai fazendo e é difícil fazer exatamente o que você imaginava, mas acho que boa parte do disco saiu como a gente pensava. No “Feras Míticas”, por exemplo, tem orquestração, naipes de metais, viola, chamamos a Lurdes da Luz para fazer um rap, o Paulo Miklos, tem mais atrações externas. Dessa vez, fizemos só a gente e alguns convidados que são quase da banda, são amigos nossos, pessoas próximas.

A escolha das participações partiu desse critério de proximidade e amizade com a banda?

É, a gente queria que fosse um convidado, mas que não roubasse a cena, vamos dizer assim, não sei se seria o termo certo. Que fosse alguém próximo e agregasse no som e contribuísse com a ideia de fazer um “disco nosso”, da banda.

Vocês dizem que a formação agora é horizontal, com quatro cantores, quatro instrumentistas e quatro compositores. As mudanças na formação mudaram a forma de compor também? 

Sim, acho que principalmente da minha parte e do (Fernando) Perdido, o baixista, porque até esse disco a gente não compunha muito. Desde a primeira formação da banda, saíram dois integrantes, O Sal (Guilherme Saldanha) e o Sessa (Sérgio Sayeg), e os dois compunham também, junto com o Tomaz (Paoliello). Então a banda tinha três compositores no começo e eles dois saíram e ficou só o Tomaz. A gente não podia deixar tudo nas costas dele, e era bom até para banda ter mais compositores e dar “caras” diferentes ao trabalho. Então eu e o Perdido puxamos um pouco para nós essa responsa, além da banda toda dividir os vocais. A Iri (Irina Bertolucci) não compõe ainda, mas ela sugere muita coisa de arranjos e tal.

Vocês também disseram que o disco é menos reverente e referente, com uma identidade mais consolidada, mais própria, mas quais são as principais influências musicais da Garotas durante toda a carreira da banda?

A gente tem influências de soul music americana, da década de 1960 e 1970, como Otis Redding e Sly & The Family Stone. Mas a gente ouve muita música brasileira: Luiz Melodia, muito; Tropicália, é claro; Jovem Guarda, a gente ouve muito. Tem muita coisa, e nesse disco dá para perceber tudo isso. A gente ouve e ouviu muito Tim Maia, que transita um pouco em tudo isso também.

Os discos anteriores não foram tão marcados pela crítica social e política como esse. Qual a necessidade de se tocar nesses assuntos hoje em dia?

É, nos outros ficou mais implícito, não é tão claro mesmo, mas foi pelo momento da banda e pelo momento político também. Mas é exatamente isso, a necessidade, a gente não podia gravar um disco neste momento e fingir que nada estava acontecendo. A gente pensou bastante nisso e fizemos letras mais explícitas, diretas e todas em português. A letra de “Não Tem Conversa” é de um amigo nosso, o Pedro Abramovay, e a gente musicou. Essa foi uma composição bem coletiva, fizemos os quatro juntos.

A opção da Irina declamar, e não cantar, a letra de “Não Tem Conversa” é para que ficasse ainda mais direta a mensagem?

A gente pensou que a voz mais adequada para fazer a música seria a da Irina, mas ela tem a voz bem delicada, então também pensamos que poderia contrastar um pouco com a ideia da música, se ela cantasse. Então, por isso a gente pensou em fazer uma voz mais falada e acho que deu um impacto legal, porque é uma letra super forte e direta. Foi o jeito que a gente achou que ficaria melhor. Bom, e também temos influência de Gil Scott-Heron, que acho que dá para ouvir bem nessa música.

“É a arte trabalhando pela arte e pela sociedade também. A arte ajuda a abrir os ouvidos, abrir os olhos e colocar discussões entre as pessoas. Falar de assuntos que muitas vezes as pessoas preferem não falar.” 

E o que vocês enxergam para o futuro de quem trabalha com arte, nessa onda conservadora em que estamos, chegando até a alguns casos de censura?

Acho que não dá para prever muito, mas eu espero que melhore. A gente está num ano de total transição, mas os artistas tem que falar o que eles falam e o que eles pensam. A gente não pode ficar num mundo fechado, a gente tem que falar o que pensa para lutar para que as coisas melhorem. Porque se a nossa classe e o nosso ciclo não se movimentar, aí com certeza nós vamos ter uma derrocada pior do que a gente já teve. É a arte trabalhando pela arte e pela sociedade também. A arte ajuda a abrir os ouvidos, abrir os olhos e colocar discussões entre as pessoas. Falar de assuntos que muitas vezes as pessoas preferem não falar. A arte não precisa sempre ser instigante, mas ser instigante é importante, para abrir debates que devem ser falados naquele momento.

Já para ir finalizando, eu gostaria que você falasse um pouco sobre uma composição sua, “Psicodélico”.

Eu fiquei meio encafifado uma época, em que qualquer coisa que um artista fazia e um cara não sabia muito bem classificar o que era, virava psicodélico. Tudo virou psicodélico. E não é uma crítica direta a quem faz música, até porque a gente gosta de som psicodélico, a gente tem essa veia. A crítica é mais para o rótulo que ficou e virou moda, para as pessoas que não sabiam classificar e falavam que o som era psicodélico, sendo que muitas vezes nem era. Essa moda deu a impressão de que tudo era psicodélico e todo psicodélico era bom. Nem tudo era psicodélico e nem tudo que é psicodélico é bom também. A música surgiu mais disso.

Nos shows que estão fazendo são apenas os quatro integrantes ou algum outro músico acompanha a banda?

No momento estamos só os quatro. Estilo bem banda de rock mesmo. Talvez para o lançamento oficial a gente chame alguns convidados, mas agora, depois de um tempo da saída do Sal, a gente reencontrou uma dinâmica de show e som. E na real a gente está indo muito bem no palco, está virando super legal como quarteto. Então não é uma preocupação ter músicos a mais. Vamos nós quatro mesmo, num carro, bota os instrumentos e é isso aí. Bora!

Vocês tocaram em Maringá em 2011, quando haviam lançado só o “Escaldante Banda”. O que o público pode esperar agora?

A gente vai tocar muita música do disco novo, mas também vamos tocar músicas dos outros discos, então o público pode esperar um pouco de todas as nossas fases. E, claro, um show animado, para dançar.]

Serviço

Será o Benedito?
Quem: Garotas Suecas e Dedo na Quina
Onde: Casa da Vó Bar (Av. Euclides da Cunha, 155)
Quando: Domingo, 4 de fevereiro.
Quanto: R$ 10, antecipado.
Local de venda: Casa da Vó Bar – (44) 30288826 ou (44) 999252134

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