Bulla Jr.

Sempre acompanhado de sua mochila, Flávio Silva é figura carimbada na Cidade Canção, mais ainda pra galera que acompanha o rock em Maringá. Com sua produtora de shows, a Sonic Flower Club, Flávio trouxe bandas renomadas para a cidade e ajudou a movimentar a cena da música independente por alguns anos.

Se ainda estivesse na ativa, a SFC estaria completando dez anos em 2014. Mas, em 2012, ele largou a correria independente por um emprego com registro, ainda aproveitando o talento pra produção, mas num ritmo totalmente diferente… Ele conversou com a Circular Pocket sobre a SFC, a música independente e otras cositas más.

Como surgiu a Sonic Flower Club?

A SFC começou em abril de 2004, mas eu já tinha a ideia na cabeça fazia um tempo. Quem acabou dando um empurrão pra começar foi o Jean, meu sócio na Sonic, no primeiro ano. Eu vivia reclamando que nunca tinha nada em Maringá e que queria fazer uma festa, aí ele disse que entrava junto no corre e aí foi onde tudo começou.

As festas começaram só com discotecagem, né? Quando você começou a arriscar trazer bandas?

As duas primeiras festas foram só discotecagem, mas na terceira edição, o Betty by Alone – de Maringá – já tocou. A ideia era ser só com discotecagem, mas também sempre teve a vontade de ter bandas convidadas.

Depois veio a Foolish, também de Maringá, e por aí foi, sempre com bandas locais. Juntamos dinheiro, pagamos o mixer que compramos e, em Agosto – a primeira festa foi em Abril – já tínhamos grana pra pagar as despesas de uma banda de São Paulo.

Bancamos as passagens e trouxemos o Starfish 100 pra tocar na primeira SFC realizada em um sábado – a festa acontecia toda semana, às quintas-feiras. Depois do Starfish 100 veio o Autoramas e aí abriu a porteira (risos). Foi Matanza, Rock Rocket, Forgotten Boys, CSS, Wander Wildner, Superguidis, Garage Fuzz, Dead Fish, Júpiter Maçã, Móveis Coloniais de Acaju, Moptop, Canastra, Vanguart…

A SFC nunca foi seu único trabalho nem ganha-pão, certo?

Teve uma época que até tentei, mas foi o maior perrengue da minha vida! Mal tinha dinheiro pra comprar discos, ir a shows… Foi complicado. Mas sempre arrumava um ou outro bico pra fazer.

E você desistiu do projeto definitivamente? Por quê?

Dá vontade de fazer um show de rock, às vezes, mas o maior problema é tempo, já que não tenho mais quase nenhum final de semana livre. Fiz dois eventos esse ano, mas não sei se terá mais edição… Depende de aparecer alguma coisa legal.

Você acha que falta o quê para que a cultura alternativa dê certo na cidade?

Falta dinheiro, mas isso não é só em Maringá, é no Brasil todo. Falta investimento pra deixar de ser cultura lado B e virar lado A. O público grande (ou mainstream) pode gostar de muitas bandas que estão tocando em lugares pra 50 pessoas, mas eles não gostam porque não conhecem.

E as bandas ficam dependendo só da internet pra divulgar seu som, o que eu considero um erro enorme. A maioria das pessoas não entra na internet pra ficar pesquisando bandas ou cantores novos. Ele vai ouvir o som que todo mundo tá ouvindo, o que tá passando na novela… Por isso precisa de investimento pra chegar nesses lugares.

Existe um senso comum de que, quando o evento tem público, a produtora ou os organizadores com certeza estão tendo lucro. Com a SFC isso também acontecia… O que você gostaria de falar sobre isso?

Acontecia sim. Tem até um lance engraçado. Uma vez trouxe o Ecos Falsos (SP), foi a primeira vez que eles tocaram aqui em Maringá. No mesmo dia teve uma festa em uma república com cerveja de graça. Acho que deu umas 30 pessoas no show do Ecos. Além de essa festa ter atrapalhado o show, ainda rolou um papo sobre um boicote contra a Sonic Flower nesse show.

A conversa que rolou é que era um absurdo cobrar 10 reais pra assistir ao show de uma banda só, e que eu ganhava tanto dinheiro que estava indo pro Tim Festival de avião com a grana dos shows (risos). Essa foi a coisa mais bizarra que rolou! Eu adoraria que fosse verdade, mas não era. Afinal, qual seria o problema em ganhar dinheiro o suficiente pra ir de avião pro Tim Festival? Nenhum! Eu pagava a banda, pagava hotel, levava pra comer na minha casa ou pagava restaurante, pagava a gráfica pelos cartazes e flyers, saía colando cartaz à noite a pé com algum amigo, fazia a maior correria no dia…

Enfim, qual o problema em ganhar dinheiro com isso? Eu não tava pegando dinheiro público pra ter que prestar contas depois de cada show. E quando lotava, na maioria das vezes, é porque a banda já tinha um nome. E quanto mais nome, mais caro é o cachê. Não vou falar que não ganhei dinheiro, ganhei sim, mas foi MUITO menos do que muita gente pensa. Acho que se colocar na balança o que ganhei e o que perdi, infelizmente vou descobrir que mais perdi do que ganhei.

Acha que falta valorizar quem participa do corre pra movimentar a cena cultural em Maringá?

Falta o público reconhecer e conhecer, e pra isso precisa investimento – voltando ao que disse na outra pergunta. E falta o público que conhece esse tipo de som ou segmento cultural, valorizar. Comprar ingresso e não pedir cortesia. Ir aos shows, comprar CD’s e não só baixar de graça. Produzir show é um trabalho como qualquer outro. Sei que muita gente não vê assim e muitas bandas não fazem questão, mas pra alguns doidos (como eu fui) é um trabalho.

A SFC, por um período de tempo, foi meu trabalho e eu queria ganhar dinheiro com isso. Ficava enchendo o saco da mídia local para fazer entrevistas com as bandas, levava em programas de TV… Tudo isso para que o público aumentasse! E muitas bandas que tocaram na SFC também pensavam da mesma maneira. Eles recebiam cachê e viviam disso, montavam a barraquinha de CDs e camisetas pra vender e não pra galera baixar de graça ou ficar pedindo de presente.

Hoje você trabalha como produtor em uma rádio de Maringá, que tem muita audiência e a música sertaneja como carro chefe. Dá pra dizer que esse é um meio inusitado pra você… Acha que isso influenciou sua opinião, te fez ver o outro lado – o mainstream – com outros olhos? O que mudou desde que parou com a Sonic Flower Club?

No rock, as bandas independentes continuam tocando pro mesmo número de pessoas, e as bandas grandes cobram um absurdo de cachê, aí a produção do evento não consegue pagar e tomam no cu (desculpem o palavrão). Eu entrei na produção da rádio quando trouxe o Ultraje a Rigor, que deu um baita prejuízo. E ainda tem aquele lance que, na boa…

O público do rock é muito chato. Claro que não são todos, mas sempre tem gente pentelhando que o ingresso tá caro, que a banda que vai tocar é ruim, que o local do show é uma bosta. Não gosta da banda ou acha caro o ingresso? Não gosta do local do show? É só não ir! Música é a coisa que mais amo na vida – depois da minha família – mas, mais do que nunca, aprendi a encarar a música como um negócio/trabalho, que existe investimento como qualquer outro.

Qual sua opinião sobre o meio cultural atual em Maringá?

Não sei mais, quase não tenho tempo pra acompanhar. Quando eu parei com a Sonic, estava ficando um lance meio bairrista. Tipo, você tinha que gostar de uma banda só pelo fato dela ser de Maringá. Isso é ridículo! Você tem que gostar de uma banda ou de um artista, porque o que ele faz é bom, porque te agrada… Não importa se é de Maringá, Sarandi ou Londres. A banda tem que ser boa!

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