Quem já foi ao show da banda curitibana Mulamba sabe o quanto é potente e pertinente todo o discurso apresentado nas letras e na postura das seis integrantes. Sabe também a capacidade de ir além e falar de forma profunda e sincera sobre o amor, amizades e família. Não por acaso, o primeiro disco do sexteto, homônimo, lançado no mês passado, já está entre os 25 melhores discos brasileiros, segundo a Associação Paulista de Crítico de Artes (APCA).

Para finalizar o primeiro single do grupo e iniciar um novo, já permeado de expectativas e muitas boas vibrações, Mulamba vem mais uma vez a Maringá para fazer o pré-lançamento do álbum – o lançamento oficial será dia 10, em Curitiba. A banda participará do 2º Intera Festival, no sábado (8), na Vila Olímpica, a partir das 15h. Também participam a banda do ABC Paulista, Nômade Orquestra, os maringaenses da Stolen Byrds, DJ Ed Groove e a DJ paulistana Mariana Lopes, grande pesquisadora de música nacional. A entrada é gratuita.

Formada por Amanda Pacífico (voz), Cacau de Sá (voz), Caro Pisco (bateria), Érica Silva (baixo, guitarra e violão), Fer Koppe (violoncelo) e Naíra Debértolis (guitarra, baixo e violão), Mulamba chamou atenção do público nacional com o single “P.U.T.A.”, que atingiu mais de 2,6 milhões de acessos no Youtube. A partir daí, foram muitos quilômetros percorridos e muitas apresentações em importantes cidades e festivais antes de entrar no RedBull Station, em São Paulo, para gravar o álbum de estreia.

“Somos instrumentistas, compositoras, intérpretes, arranjadoras e esse disco é um alargamento de cada uma. Ele marca o que éramos, no momento em que parimos esses sons, e o seu lançamento fecha esse ciclo. Inclusive, a impressão é de que o tempo se arrasta lentamente, mas na verdade muitas coisas aconteceram em apenas dois anos de banda. Custa acompanhar o ritmo do cotidiano”, resumem.

O álbum “Mulamba” traz músicas já conhecidas pelo público, mas em versões repaginadas. Entre elas está a icônica “P.U.T.A.”, gravada com participação de Ju Strassacapa (Francisco, el Hombre), e “Desses Nadas”, com participação de Lio Soares, da banda Tuyo.

Conversamos com a compositora e vocalista Cacau de Sá, por e-mail, sobre a produção do disco, o significado dele para a banda, o painel sobre protagonismo da mulher na produção cultural, do qual ela irá participar, influências, show em Maringá e um pouquinho mais.

– Em três anos de banda, esse é o primeiro disco, com músicas que vocês vêm tocando por muitas cidades e festivais importantes do país já há algum tempo. Qual o significado desse lançamento para a Mulamba?

Bem complicado responder isso de uma forma sucinta, mas diria que estamos prestes a fechar um ciclo para entrar em outro a partir desse. Passamos de banda cover para banda autoral em cerca de um ano talvez, e fomos atrevidas o suficiente para criar um projeto só com mulheres num país onde o privilégio, até na arte, é em maioria dedicado ao homem.

Contamos com sorte de sermos aceitas por diversas pessoas e suas pessoalidades e agora um disco com nove faixas e a possibilidade de um diálogo sem a necessidade da presença de pessoas que sabe-se lá se um dia conheceremos ou se aceitarão o trabalho como ele está, mas que entrarão em contato com nossas mensagens através do disco.

É uma responsabilidade muito grande ter músicas assinadas por nós e ao mesmo tempo é de uma alegria surreal, como se ainda não fosse verdade que no dia 8, pré-lançaremos o disco em Maringá e dois dias depois lançaremos o disco em Curitiba onde tudo começou.

O que vem depois, saberemos todas juntas e isso é muito importante pra gente porque o disco é hoje algo real e palpável, mas a carreira na música é imprevisível e efêmera, então o que vier é consequência do nosso trabalho, mas sabemos que os festivais foram os nossos principais meios para alcançarmos diferentes públicos com nossa música.

– Li um texto sobre o disco em que o autor começava se perguntando se vocês conseguiriam levar a potência que têm no palco para o disco (E logo responde que sim). Essa foi uma preocupação de vocês durante a gravação?

A nossa preocupação foi em ter no disco um resultado tão real quanto no show ao vivo, mas ao mesmo tempo diferente, com toque de arte de artistas que nos representam de alguma maneira. Pequenas facetas que só o disco ressignifica e preserva.

E a representatividade que o disco terá é também, em parte, algo em que acreditamos e nos dedicamos em plena desconstrução de nós mesmas durante esse ciclo: um processo permanente e mutante que é cada vez mais necessário, alinhar fala e gesto e ressignificar e ocupar os espaços sociais.

– Como foi a gravação e produção no RedBull Station?

A gente ganhou alguns dias de gravação no estúdio como parte de uma premiação, quando fomos selecionadas a participar do Vento Festival, por votação aberta através da internet. A banda mais votada tocaria no litoral de São Paulo pelo evento e ganharia gravação, mixagem e masterização de algumas faixas, quantas pudesse produzir nesses dias, mais uma quantidade em cópias que virá depois. No nosso caso, só a gravação foi realizada lá, por falta de tempo, agenda ou alguma outra coisa que não sabemos direito.

Nosso disco não teria prazo para sair esse ano se esperássemos pelo estúdio ou pelo Vento Festival, e como já havíamos adiado o lançamento do  disco, e queríamos dar seguimento a nossos projetos, resolvemos nós mesmas mixar e masterizar o disco para que ele saísse ainda em 2018, o quanto antes.

Então, Amanda (Pacífico) e Érica (Silva), principalmente, ficaram internadas com a galera da Gramofone, em Curitiba, para terminar o disco na parte de mixagem e masterização. A gente sempre dispôs de um caixa, que serviria para alguma eventualidade importante, como no caso arcar com o valor de mix e maxter, com o brother da Gramofone. Tudo se encaminha muito bem porque nos programamos internamente para investir no projeto.

O processo de produção foi lindamente conduzido por Érica Silva que dedicou dias e noites para fazer esse disco uma realidade. Ela trabalhou nos arranjos com uma dedicação, carinho e profissionalismo que é de se admirar em qualquer trabalho. Nos ensaios coletivos, cada instrumentista colaborava, no seu instrumento, de alguma maneira e a gente foi lapidando cada composição até chegarmos no que está gravado. Uma parte importante da produção se deu em uma internação de três dias num chalé maravilhoso no meio da mata atlântica, sob os cuidados gastronômicos de Sofia Suplicy e regência de Érica, em ensaios separados e coletivos, que se davam durante o dia, contrastando com jogo de adivinhação que acontecia a noite para descansar o trabalho.

A gravação foi objetiva, exaustiva, intensa e ao mesmo tempo maravilhosa. Várias artistas  colaboram com importância desse processo. Muita coisa pra ser gravada em um curto espaço de tempo e aproveitamos cada minuto da melhor forma possível.

– Quando se fala do gênero das músicas do disco, citam MPB e que vai do rock à música erudita, basicamente. Queria saber quais são os artistas que mais influenciam vocês, seja para compor, seja para se apresentar.

Nossa, acho que é tanta gente, acho que é tanta arte e muitas delas anônimas, que seria raso só citar nomes de grandes artistas aqui. Acho que podemos começar por nossas mães, que de alguma maneira estão, estiveram e sempre estarão nos inspirando nessa caminhada, sendo nossas primeiras artistas da vida real, nossas referências mais genuínas ainda que em quase nada se relacionem com a música. Nossas irmãs e suas forças e formas de ver o mundo, o que vai além de berço, nossas amigas artistas com menos de 400 seguidores no Instagram ou mesmo sem.

Os artistas que circulam nas cena local, ou até no anonimato de Curitiba. As mulheres que desafiam o patriarcado e expressaram e expressam suas verdades fazendo arte. E aí chegamos na gente. Por mais que se tenha referência de grandes nomes da música, é a gente que sobe em cada palco com a nossa verdade, bem ou mal, errando e acertando nossos desesperos gozos sendo usado na desconstrução de nós mesmas.

– Com três anos juntas, tocando em muitos lugares, já existem novas composições?

O processo do disco foi muito cansativo e obstinado, o que nos deixou exclusivamente dedicadas a ele, também tem os shows e as viagens muitas vezes cansativas que não deixam muito espaço pra tudo que tem dentro de tantas cabeças ecoarem música em forma de palavra e arranjos, e tem a vida de cada uma. Mas sempre tem o esboço de algo, sempre uma ideia para quem sabe um segundo disco. Muito a se falar sobre os tempos de agora, e está tudo guardado nas memórias, nos bloquinhos, nas mais diversas formas de armazenamento de mídia esperando para ser acessado assim que sentirmos que o disco começa a se aperceber no mundo.

No mais, temos muita coisa pronta que não tinha como colocar nesse primeiro disco, quando começamos a criar, timidamente, explodimos todas as possibilidades e guardamos. Acho que logo menos ou logo mais algo se mostra, agora mais descansadas e com aquela sensação de dever cumprido. Nosso primeiro disco, nossa primeira impressão artística sobre tudo que nos cerca e norteia está disponível em várias plataformas e seja o que tiver que ser.

– Quando você fala sobre a música “Vila Vintém”, fala sobre a discrepância das cidades serem espaços com muito a ser desfrutado, mas que não são. O Intera Festival tem essa preocupação de levar arte gratuita para as ruas, para a população, para ocupar a cidade, para que ela possa ser ocupada por todo mundo. Queria que falassem um pouco da importância de projetos como esse.

Toda a forma de manifestação artística e difusão de cultura é mais que muito bem vinda, ainda mais na atualidade, em que um governo higienista se aproxima, em que as taxas das pessoas consideradas à margem só vem aumentando, ao mesmo tempo que sumindo sem deixar rastros e as diferenças não são respeitadas e nem preservadas. É de bom tom que a arte se manifeste e se aconteça de forma franca e aberta.

A arte é um veículo com um poder de comunicação inimaginável e quando ela se faz de forma democrática, para toda a sociedade, em lugares abertos, em ruas, em praças, em bairros, derrubamos os muros invisíveis de uma sociedade impiedosa com quem não é dono dos meios de produção e da moeda. Quanto menos grades e cartões de crédito esconderem e privarem o povo da arte, mais ela cumpre seu papel social de comunicar e despertar o senso crítico.

Mais que parabéns se deve desejar a projetos que se arquitetam de forma democrática num país que pouco investe na arte como um todo. Desejamos que cada vez mais pessoas saiam às ruas movidas e comovidas pela arte sem carecer status, roupas caras e dinheiro. Que só se misturem e se sintam talvez estranhamente conectados por um fazer artístico menos elitizado e menos centralizado.

– Você vai participar de uma conversa com produtoras, artistas e comunicadoras de Maringá que trabalham com cultura. Em relação ao protagonismo da mulher na cultura, tema dessa conversa, quais são os principais problemas? Por que ainda em 2018 é necessário fazer uma roda falando sobre o tema?

Um dos principais problemas é a nossa cultura, uma cultura que desde sempre se certifica de que mulher seja e se mantenha inferior e fraca. Uma sociedade feminicida que ainda usa o termo frágil como se fosse um elogio e apoia o estupro corretivo como se ele fosse uma gentileza social para as almas afetadas e femininas que não cumprem seus predestinados papéis sociais, determinados por um Deus, um governante que tudo sabe e tudo vê, e distorcidamente vê a sociedade feminina como descartável.

E se em 2018 ainda vivemos isso é por que ainda ensinamos os meninos a caçar e as meninas a somente preparar a caça, onde o homem é ensinado que ele é o poderoso dono e provedor do lar, mesmo que na realidade não seja bem assim, já que no Brasil a mulher é tão ou mais responsável pelo sustento de suas casas e ainda constitui mais que 50% da população.

Enquanto encorajarmos crianças a hipersexualizar e menospresar outras crianças por identidade de gênero, orientação sexual, etnia ou classe sabendo que dentro de cada e todos esses grupos o homem é sempre legitimado a oprimir a mulher enquanto ela lava roupa e ele sai pra jogar futebol ou beber no bar com os amigos, ou mesmo desafiar os perigo de se sentir livre e dono de si. Enquanto o falo for o determinante de uma sociedade decadente a gente vai precisar de muita roda de conversa.

– Social e politicamente, o Brasil parece estar dando um passo para trás. Dentro do Psicodália, inclusive, rolaram algumas conversas de que o show de vocês não deveria ser durante a tarde porque tem crianças e vocês usam palavras como “embucetada”, “siririca”, “puta” e “cu”, por exemplo. Como vocês, mulheres artistas, se enxergam dentro desse contexto atual tão conservador?

A gente se sente castrada toda vez em que uma palavra ou palavrão na boca de uma mulher é considerada um ato desaforado ou uma afronta social contra a moral e os bons costumes. Sabemos de tantas bandas lidas como compatível a todas a idades, que são carregadas de conteúdos lascivos nas mesmas palavras, ou subentendidamente, e são veneradas, em maioria composta por homens, e elas passam despercebidas e aclamadas pelo público porque são homens falando.

Então, o real problema não é, em todas a situações, a palavra em si e sim a mulher falando por si só e usando como bem quiser as suas palavras que incomoda a sociedade e não é só quando se trata de lidas burramente como inadequada à mulheres.

– Vocês já se apresentaram em Maringá, mas esse show do dia 8 vai ser um show que antecede o lançamento oficial do disco, no dia 10, em Curitiba. O que tem de diferente das outras apresentações que já fizeram em Maringá?

A diferença acho que se compara, pretensiosamente, a leveza de um pós parto sabendo que mais uma criança está habitando o mundo e precisa crescer nele sabida dos perigos e delícias deste lugar. E se virar, vai que cresce e faz bagunça no sistema nervoso do sistema central da gente (Hahaha!).

Ainda tem a vontade de fazer um som bonito em todas as instâncias, para
saber agradecer direito a importância das nossas ideias derivarem nas ideias outras.

 

 

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