Um mangue boy nunca corre de um desafio. Fred Zero Quatro, vocalista da Mundo Livre S/A, banda que se apresenta neste domingo (11) em Maringá, ao ser instigado numa tarde de quinta-feira ao telefone, costurou em palavras o que até poderia ser um terceiro manifesto da cena Manguebeat.

“Parece que ninguém está mais interessado em música pra ser apreciada como música” é uma crítica do artista ao fato de que exatamente quando se democratizou a forma de produzir e divulgar o trabalho cultural, por meio de diferentes plataformas do mundo digital, a forma de consumir está muito mais baseada em sugestões para que a música, por exemplo, seja pano de fundo para outras atividades como malhar, cozinhar ou fazer churrasco. Preocupado com a sustentabilidade da cultura, em tempos que um percussionista de uma das maiores bandas de pagode do Brasil (Raça Negra) tem que se virar como motorista do Uber, Zero Quatro faz uma reflexão da cadeia produtiva da cultura nacional. “É uma das maiores bandas de pagode do país, imagine para uma banda alternativa?”, dispara.

Os mais de 30 anos de carreira, o protagonismo na maior cena musical (que vai muito além da música) depois da Tropicália, além de conhecimento e língua afiada, credenciam Zero Quatro a mais do que questionar, a cumprir o papel fundamental do artista em um país instável democraticamente. Fred também conta, na entrevista a seguir, sobre o repertório para o show em Maringá, sua experiência frustrada no jornalismo e a situação política do Brasil – sempre com muitas referências.

O que o público em Maringá pode esperar em relação ao repertório. Será basicamente o do DVD lançado neste ano, Mangue Bit ao Vivo?

Isso. A gente está nesse período de divulgar o Mangue Bit ao Vivo, esse que é o primeiro ao vivo que a gente fez. E uma preocupação que a gente teve na montagem do repertório foi de contemplar todas as fases da banda. Tem coisas antigas e coisas novas, do trabalho mais recente, o Novas Lendas. Inclusive, também tem uma música inédita, Loló Luiza, que a gente não tinha lançado oficialmente ainda. Com certeza, a gente contempla nesse repertório os fãs mais antigos, que acompanham desde os primeiros discos, até uma galera que descobriu mais recentemente. E o público pode esperar um show com muita adrenalina e que não deve em nada ao registro em DVD.


Como você enxerga a influência da cena Manguebeat no cenário cultural brasileiro, visto que a banda maringaense Sollado Brazilian Groove, que tocará no mesmo evento, tem claramente essa cena como referência no som?

Eu acho que a cena mangue teve um impacto muito forte quando lançada na década de 1990. É engraçado porque foi uma cena que rolou ainda na indústria do século 20, era uma indústria fonográfica pré web 2.0, pré internet, mas meio que com um conceito multicultural, meio que prevendo uma desconstrução da indústria fonográfica da época. Depois até surgiu um movimento chamado Fora do Eixo, que teve inspiração no Abril Pro Rock, um festival aqui de Recife, que projetou a cena do mangue e tal. E Fora do Eixo foi meio que isso, inspirado nessa coisa de mostrar que era um absurdo um país tão grande como o Brasil e com tantas identidades e tanta diversidade de gêneros e culturas, de batidas e tal, ter uma indústria concentradora com uma configuração da cadeia da cultura totalmente concentrada ali em São Paulo e no Rio. Então, o mangue veio inspirar inclusive outras cenas que vieram depois com o mesmo conceito de descentralizar tudo, democratizar. Eu acho que hoje a gente se mantém como uma referência, porque, assim, a galera se identifica com esse sentido que o Brasil de hoje é muito diferente da indústria concentrada. Quando se fala de uma galera do interior do Paraná, você vê que tem esse tipo de identificação com uma referência fora do eixo, várias identidades que podem existir e colocar novos paradigmas pra cultura do Brasil.

Quando vi aqueles diálogos vazados do Romero Jucá com o Sérgio Machado, que deixam claro a jogada de colocar o Temer no poder, me veio Militando na Contrainformação (do disco Guentando a Ôia, de 1996) na cabeça, embasada naquele vazamento do Rubens Ricupero, então ministro da Fazenda. Partindo disso, como tem visto o cenário político atual, com esse conservadorismo e tradicionalismo que a cena do mangue sempre combateu ao longo do tempo?

Você vê pelo filme Aquarius, do Kleber Mendonça, que inclusive é aqui de Recife, que bateu US$ 2 milhões de arrecadação no mundo todo. Isso seria muito maior se o filme não tivesse sido retaliado por esse ministério com um golpista que não indicou o filme pra ser o representante brasileiro no Oscar. Se não tivesse essa retaliação política, lógico que poderia ter vendido muito mais pelos prêmios que tem ganhado pelo mundo. Uma banda como a Mundo Livre e outros artistas aí, a gente sabe o quanto esse cenário de fascismo, de intolerância, de ódio, é ruim. E a gente tem hoje a própria imprensa política com papel de meio que rachar o país. Fomentar mesmo esse clima de intolerância.

Vejo hoje uma crise institucional que começou com a relutância de um setor que não aceitou uma derrota nas urnas, derrota eleitoral que não foi assimilada pela direita, e que acabou de forma irresponsável jogando o país numa crise institucional, uma espécie de anomia, que dá aparência de uma guerra de gangues. Um judiciário que não tem mais moral com o legislativo, que não tem moral com o executivo. Eu acho muito louco, a coisa mais absurda que senti essa semana, que no dia em que um senador, vi numa matéria acho que na parte de economia da Época, o Tarso Jereissati (PSDB-CE), que teve a classe empresarial ligando pra ele em pânico, pensando em deixar o país, nesse clima completo de anomia, e nesse mesmo dia a bolsa disparou (risos), subiu dois pontos.

Aparentemente existe uma aposta pra destruir o Brasil, a economia, o possível legado. Estou aqui, inclusive, assistindo um documentário do Noam Chomsky, o “Requiem for the American Dream”, onde ele fala justamente isso, e aí faço essa associação que o que está havendo hoje no Brasil é um pouco do que aconteceu nos Estados Unidos depois dos movimentos ativistas dos anos 1960, onde houve uma demanda por democracia muito grande naquele lance com Malcolm X, os Panteras Negras, o feminismo, demanda por direitos civis muito grande, e aí ele coloca que nos anos 1970, os grandes meio corporativos principalmente das finanças começaram uma estratégia de reação violenta contra tudo isso. E ironicamente, esse filme é de uns quatro anos atrás, mas eu diria que culminou nessa eleição do Donald Trump agora.

Então, eu acho que o que está acontecendo no Brasil é pouco do que aconteceu nos Estados Unidos a partir dos anos 1970, uma elite que aparentemente não conseguiu assimilar toda a revolução, digamos assim, sem armas, toda demanda de direitos que foram conquistados pela população nos últimos governos, toda essa história de dividir aeroporto, cruzeiros, e também as conquistas sociais que foram muito rápidas e com muita intensidade num período muito curto, e o que a gente está vendo, aparentemente, é uma reação muito violenta e irresponsável colocando em risco a harmonia institucional do país.

Em 2014, quando a Nação Zumbi tocou em Mandaguari, o Dengue (baixista) me contou que se lembrava de você como repórter de televisão. Queria que contasse um pouco sobre essa experiência no jornalismo.

Na verdade, toco e componho desde a adolescência. Comecei a tocar violão com 12 anos. Antes disso tinha tido aulas de piano. Mas era uma coisa mais existencial. Profissionalmente, eu comecei no jornalismo, me formei em comunicação na UFPE, tinha banda de garagem, mas até pelo lance de Recife ser um centro muito longe da indústria fonográfica, a música sempre foi uma coisa paralela na minha vida. Comecei a trabalhar na rádio Transamérica aqui e depois fui trabalhar na sucursal do SBT, que era a TV Jornal. Fui fazer teste lá, estavam contratando repórter, tinha passado uns anos como radialista, e fui trabalhar.

A minha vocação, segundo a minha chefe de reportagem na época, era a imprensa escrita, pela linguagem. Mas ela disse que infelizmente eu teria que adaptar o texto para uma coisa mais, ela não usou esse termo, mas mais medíocre (risos). Texto de televisão é aquela coisa de massificar tudo. Então é isso, demorei um pouco a me adaptar a essa realidade de escrever vários textos por dia numa linguagem muito mais rasteira. Hoje eu diria, ainda mais com esse tipo de mídia que temos atualmente, que é uma linguagem imbecilizante. O próprio William Bonner, na época da campanha, chegou a dizer que encara o telespectador como Homer Simpson (risos). Enfim, foi uma experiência meio traumática e eu espero não ter que retornar.

Vou propor um exercício de imaginação agora. Você escreveu o primeiro manifesto da cena “Caranguejos com cérebro”, no início dos anos 1990, como uma espécie de inauguração. Depois, com a morte de Chico Science, em 1997, você se manifestou novamente por meio do “Quanto vale uma vida”. Passado tanto tempo e com a consolidação da cena, hoje, se fosse fazer o terceiro, o que precisaria ser dito?

Cara, complicado. Eu acho que é difícil levantar qualquer tipo de bandeira na situação que o país se encontra hoje, de crise institucional, que não se remeta à política. Mas eu acho que o enfoque da tua pergunta é uma coisa mais histórica. Enfoque mais cultural, independente desse contexto social e político.

Eu acho que tem uma questão que não envolve só a cena aqui de Recife, mas que envolve a cadeia da cultura no mundo todo. Eu hoje posso lhe falar que tenho uma visão bem diferente porque tenho dois filhos, um de 10 e outro de 14 anos, e eu vejo que a forma da fruição musical, do consumo de cultura pra essa geração mais nova é radicalmente diferente, óbvio que sempre houve essa coisa da mudança de paradigmas, mas eu vejo um momento em que a cultura e não só especificamente a música, mas também a música, está cada vez mais perdendo espaço, perdendo campo, perdendo valor em relação a outros campos do consumo intelectual.

Fico impressionado como hoje em dia, ao mesmo tempo que as ferramentas tornam muito mais acessíveis você se lançar, gravar, jogar uma música inédita, independente e alternativa em qualquer ferramenta e tal, ao mesmo tempo que se torna a coisa muito mais democrática e acessível, eu vejo quando busco meus filhos na escola, eles curtem uns remix, estão apaixonados por certos DJs, aí eu pergunto de quem é a música e respondem que não sabem de quem é. Por exemplo, os streaming da vida, Spotify, Deezer e afins, ao mesmo tempo em que tem uma diversidade muito grande de oferta a forma das pessoas consumirem é muito mais baseada nas sugestões do tipo músicas para comer, para passear, para comer churrasco. Você simplesmente não sabe quem está tocando, aciona aquilo ali pra não se incomodar e parece que, pô, ninguém está mais interessado em música pra ser apreciada como música. Então, assim, fico meio sei lá, perplexo. Não sei se seria o caso de um manifesto sobre isso, mas se eu fosse fazer uma coisa assim eu apelaria para que as pessoas retomassem um pouco esse senso de que a música foi feita para ser apreciada como música e não apenas uma coisa pra se pintar, pra se cozinhar, malhar, sei lá.

Eu apelaria para um lance, que resumindo seria mais ou menos assim, as pessoas se preocupam tanto com o termo sustentabilidade. Sustentabilidade das florestas, dos rios, da atmosfera, das geleiras, sei lá, do golfinho da puta que pariu. Seria bom que as pessoas também começassem a se preocupar com a sustentabilidade da cultura. Sustentabilidade em termos de cadeia produtiva. Essa semana mesmo estava correndo uma notícia meio prosaica, entre aspas, na Folha, de que um percussionista de uma das maiores bandas de pagode da história do Brasil está se virando como motorista do Uber.

Então, assim, por quê? É uma das maiores bandas de pagode do país, imagine para uma banda alternativa? Qualquer coisa que não é sertanejo hoje em dia é algo quase que como se fosse música amadora. As pessoas poderiam se unirem e refletirem um pouco sobre essa questão a sustentabilidade da cultura. Da cultura poder se sustentar como cadeia produtiva.

Pra fechar, eu queria saber, com base no que disse seu amigo Xico Sá (sábias palavras) e que está na música “E a vida se fez louca”, do álbum “O outro mundo de Manuela Rosário”, de 2004, as palavras seguem saindo por uma porta e a vida por outra?

(Risos). Cara, mais do que nunca. Eu terminaria essa resposta com uma definição que eu li outro dia sobre o negócio do Google, que é o seguinte, muita gente pensa, e isso foi um neurocientista que escreveu, que a renda do Google vem da informação, da busca pela informação. Pelo contrário, a principal receita deles não é a informação, é a abstração. Eles, inclusive, contratam pessoas para fazerem pesquisas e tal e formatarem a diagramação de cada página, as cores, as letras, tudo, para que as pessoas fiquem menos tempo possível em cada página, porque quanto mais clicam, mudam de página, mais o Google ganha. O negócio do Google na verdade é apostar na sua perda de foco, não é a informação, é a “disformação”, ou como os neurocientistas dizem, a abstração. É isso aí.

O evento “Tropical Free” com a banda Mundo Livre/A e Sollado Brazilian Groove será no próximo domingo (11), a partir das 17h, no Armazém do Jô.

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