Paulo Cesar Mendes

Niterói, 22 de setembro de 1981. Há 37 anos, o mundo recepcionava Rodrigo Vieira, o MC Marechal, rapper carioca que, no final dos anos 90, teve reconhecimento nacional devido à participação no já extinto grupo de rap Quinto Andar. Atualmente, Marechal segue carreira como MC, compositor, produtor, apresentador e ativista.

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E você está convidado para se sentar e ler as ideias que o rapper lançou para a gente. Chamado pela organização do festival de hip hop Soul Breaking para festa de encerramento do evento, Marechal veio até mim para a conversa após a passagem de som – antes de se apresentar em um show épico, onde geral levantou a mão porque sentiu ser real. O clima no dia da entrevista era típico do outono maringaense, e o vento que soprava nas árvores acentuava um pouco mais o frio que anunciava a sua chegada na Cidade Canção.

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Tranquilamente, o MC de moletom, meia e chinelo, se sentou e já de prontidão encaixou o gravador de voz na roupa. Começamos a entrevista. O papo fluiu legal e foi muito produtivo.

Espero que os leitores e ouvintes das palavras (pois o conteúdo das respostas está na íntegra em material sonoro) desfrutem com sabedoria dos conselhos do MC nas entrelinhas e também conheçam um pouco mais sobre o apresentador, ativista, cantor, compositor e produtor. Com vocês e para vocês, MC Marechal.

A Batalha do Conhecimento, criada por você em 2007, difere-se das batalhas tradicionais de rima, pois visa construir uma disputa com raciocínio lógico, rápido e criativo com rimas criadas a partir de palavras escolhidas pelo público. Seria uma forma de liberdade de expressão que busca elevar as ideias e difundir a leitura, onde ganha quem fizer a rima mais inteligente?

O critério é do público. Se a pessoa rimar alguma coisa e o público achar que aquilo foi mais relevante, o MC vai ganhar. A gente propõe que eles façam as coisas mais inteligentes e interessantes, mas não é uma forma de controle, sabe? Não é “proibido” você fazer alguma coisa, você faz o que quiser. E isso foi entendido durante muito tempo. Agora, a Batalha do Conhecimento está em um pequeno recesso porque não tenho uma equipe para realizá-la…

Explique mais sobre a ideia e a origem do projeto para nós…

Foi bem espontâneo. A gente fazia as batalhas na época e teve uma hora que pensei em fazer algo mais cultural, tipo uma troca de ideias, e marcamos. Só que a troca de ideias não era algo tão “interessante” para muitas pessoas, então, a gente conseguiu reunir naquele dia umas vinte pessoas. Aí pensei de novo e, na outra semana, iria acontecer à troca de ideias novamente. Eu sugeri fazer uma batalha de rimas onde houvesse troca de informações. Então foi criado esse o nome, Batalha do Conhecimento. Nas batalhas, exibíamos um filme, depois do filme tinha um debate e depois as palavras, onde a galera trocava ideia sobre o tema. No começo ninguém entendia muito bem, mas a parada foi crescendo de uma forma bem interessante, tanto que virou até um estilo, sabe?

Há algum tempo, com as músicas que produz e projetos que cria ou participa, você vem expandindo a mente de muitas pessoas “no trabalho, quando o patrão não tá vendo”

É, faz parte. O meu objetivo é chegar com questões. Tem uma música que falo isso: “Não pense como eu penso, não aja como eu ajo, apenas reaja ao senso”.

Vamos voltar à realidade (#VVAR) representa seu selo e produtora, e segue com a premissa de compartilhar conhecimento e fazer música com informação. Qual o significado da sigla no rap?

É uma parada mais ampla. Mas dentro do rap é justamente a gente entender as coisas sem se deixar influenciar muito. É difícil falar em mídia, sabe? Hoje em dia a gente já faz bastante ela. Isso aqui é uma mídia feita por você, então faz parte da mídia. Mas a proposta que as pessoas têm, muitas vezes, é só de jogar o rap para o mercado, apenas com essa intenção. Eu acho muito importante saber fazer girar dinheiro em cima, mas acho que perde muito na parte cultural, da origem. Acho que a intenção seria mesclar as coisas.

Pensando no lado cultural do hip hop: a difusão do conhecimento por meio do movimento não é segredo. Você expõe muito sobre projetos socioeducativos e consciência nas letras. Apesar de toda a sua representatividade, é difícil inspirar e, de certa forma, “livrar” a mente de jovens?

Digamos assim, nós temos muitas coisas que vão de encontro com o que eu propago. Agora dificuldade, eu acho que não. Acho que é a realidade. Não consigo encarar as coisas com dificuldade. Consigo falar: olha, isso tem menos probabilidade, mas isso não quer dizer que é impossível, não quer dizer que não vai dar para ser feito. Só que tem menos visibilidade, porque desperta menos deslumbre para maioria das pessoas, então é aquilo, talvez brilhe menos, sabe? Mas a luz não tá no brilho, né?

 

No vídeo, você pode conferir as perspectivas do MC acerca da cultura hip hop e entender o trecho “evolução para mim vai ser quando eu parar de rimar e falar com a presença”, presente na música o Hip Hop é Foda, do Rael, com participação de Emicida, Marechal, Kl Jay e Fernandinho Beat Box. Além disso, Marechal fala sobre pluralização.

Solta o play!

Atualmente contamos com muitos artistas. Temos letras mais conscientes, sensuais, de amor… Enfim, o leque está grande. É possível explicar para crianças e adolescentes, e até mesmo para um adulto, sobre a diferença entre músicas de lazer e músicas de protesto?

É difícil explicar isso. Eu não sou uma pessoa que se diverte ouvindo uma música só para zoar, mas isso aí sou eu, não é o certo ou errado, é só o eu que faço. O que me diverte é a música que faço. Então, faço uma música que eu possa me divertir e ao mesmo tempo possa propagar coisas que acredito, e se isso diverte outra pessoa, ótimo. Se não diverte, tudo bem. É até menos divertido se você for parar para pensar que, talvez, é preciso refletir muito no que faço. São muitas palavras, referências, e, para compreender legal, você vai ter que estudar um pouco, e se não acha divertido estudar, provavelmente, não vai achar divertida a parada. Mas eu tento mostrar de uma forma que as pessoas possam se inspirar em estudar.

Essa seria a questão? Inspirar a busca pelo conhecimento?

É uma das questões. Isso serviu para mim, eu me inspirei pelo conhecimento do Gabriel, o Pensador, dos Racionais. Então, isso me deixou mais livre, como você falou antes, e se eu puder fazer isso…

Alguma crítica para indústria cultural?

É limitada. E dependendo do ponto de vista, um pouco manipuladora. Eu não vejo um esforço real para um progresso humano.

Gabriele Manini

Qual sua visão sobre a representatividade feminina no rap?

Eu não sou mulher, então não posso entender cem por cento de uma representatividade de ser mulher. Eu vejo que o que chega ainda é pouco do que pode chegar para as pessoas. Com certeza têm muito mais mulheres fazendo música e que de repente ainda não conquistaram uma visibilidade para chegar mais. Eu pretendo “tá” junto com várias mulheres para poder fazer música. Trabalho com muitas mulheres e na minha empresa têm mais mulheres que homens, mas ainda não rimando. Espero conhecer pessoas que eu possa investir para rimar também.

Você acha que a mulher está mais presente na música?

Sempre esteve. Hoje mais pessoas têm a oportunidade de produzir em casa. Então, antigamente – não faço ideia, também não sou tão antigo assim – fazer as coisas era um pouco mais difícil. Por exemplo, você está gravando com equipamento aqui e talvez, há dez anos, não fosse possível, sabe? Então para todo mundo tem uma dificuldade antiga que hoje já é mais “fácil”, mas também tem mais gente fazendo. Então é mais difícil você ter um destaque quando tem mais pessoas fazendo.

Entre ódio e amor, como você classifica o rap na sua vida?

Foi minha escola. Eu faço as coisas, na verdade, sempre com amor. Até quando eu estou com raiva, é com amor. E mesmo assim, a raiva não é necessariamente o ódio, é só a raiva. Mas minha mensagem é sempre positiva, nunca de depreciação, nada disso.

Você expressa sentimentos que todo ser humano tem…

Não sei se todos têm… Mas minha perspectiva é bem do rap mesmo, essa foi minha escola. Tenho que aprender muito ainda sobre outras coisas da vida para conseguir ampliar mais meu leque.

No freestyle foi onde você se destacou e é também muito reconhecido por conseguir encaixar uma palavra na outra, rimando. Queria saber sobre as sensações que você tinha em suas primeiras batalhas.

Vou te falar, eu sempre tive a mentalidade que eu ia ganhar, sempre. Nunca pensei que eu fosse perder, sabe? Acho que hoje em dia eu tenho menos essa arrogância do que antigamente. Mas antigamente eu tinha certeza que ia ganhar. Eu era criança e pensava assim: vou lá e vou ganhar, é isso aí. O que é interessante. Torna-se uma vontade com uma força que você se dá para você mesmo.

Algo que te motiva…

É. Você se motiva e fala, vou ganhar. E se eu perder foi roubado.

IFrameComo você encontrou seu dom?

Então, não é dom. Dom não existe. Existe você sentar lá e fazer, perceber as coisas. Você pode não ficar treinando o tempo todo, mas se você consegue entender o motivo, você vai conseguir reproduzir aquilo. Eu demorei um pouco para entender, mas quando fui entendendo, treinava bastante e conseguia reproduzir. E de tanto reproduzir você começa a criar seu próprio estilo. Aí, tem um momento no qual as pessoas começam copiar seu estilo, mas depois elas criam o estilo delas também.

Queria conversar um pouco sobre o Quinto Andar. Em sua opinião, o que o grupo representou para o rap nacional no fim dos anos 90 e começo dos anos 2000?

Acho que a gente só viu depois, sabe? Mas acho que deu uma abertura na liberdade de poder fazer o que quiser. O Quinto Andar é o som mais despojado que eu já ouvi, então, com certeza, inspirou vários que pensaram “cara, eu posso ser isso também”. Se a gente possuísse a mentalidade de hoje em dia seria até mais interessante. Hoje em dia temos mais informação, então poderíamos ter feito aquilo de uma forma mais profissional e ao mesmo tempo amadora. Era bem amador e bem livre. O que era ótimo. Se fossemos mais profissionais, talvez, coisas mais legais ainda teriam acontecido.

Você acha que o Quinto Andar ainda leva essa visão mais despojada para o rap?

Hoje acho que não. Acho que as pessoas não conhecem mais o Quinto Andar.

IFrame

Na música “Quem Tava Lá”, onde resumidamente conta sua história, você diz que saiu invicto da Liga dos MC’s. Essa fase da sua vida como artista e como pessoa representa que tipo de mudança em você?

Já tinha tudo em pensamento do que fazer, mas não tinha mentalidade e não tinha estrutura.  Então foi o tempo para adquirir a mentalidade, depois a estrutura para conseguir criar o que é agora. Em minha opinião e na minha visão, estou só começando. Agora que vou começar. Agora consegui ter a mentalidade que acredito ser interessante passar para frente e tenho um pouco mais de estrutura para dar continuidade. Na verdade, era como se antes fosse à escola primária e agora posso começar a cursar o segundo grau.

Você sempre coloca em pauta assuntos como  alienação, futilidade…

Não uso bem essas palavras (risos). É mais um alerta, eu vejo muitas pessoas próximas e não próximas depois reclamarem que as coisas não estão dando muito certo, que tal pessoa tem sorte. Eu não acredito muito nisso, acredito que se você sentar e trabalhar, você vai resolver. Então, se você se ligar em coisas fúteis ou se alienar, provavelmente, você não vai seguir o foco que você diz para você mesmo que acredita, mas que não pratica. E não adianta, cara, você pode ser o maior jogador do mundo na mente, se você não treinar você não vai ser o melhor no jogo.

E para finalizar: o mundo digital. Você disse que antes era mais difícil colocar material para rodar, ou seja, mostrar o trabalho para as pessoas. Como você enxerga o digital hoje no hip hop?

É uma forma de liberdade. Você tem menos intermediário. Pode fazer por você mesmo. Tem que entender a ferramenta também, antigamente, era outra ferramenta. Hoje é só uma nova ferramenta, a música continua a música. Hoje em dia, ainda acho que está caminhando, nem todo mundo entendeu esse processo ainda, mas é uma nova ferramenta, e daqui a pouco vai estar dominado. E vão existir outras. Se souber utilizá-las, antecipe-se e faça sua empresa disso. Mas eu acho que é uma liberdade você poder gravar uma música e amanhã soltar para as pessoas ouvirem, isso é incrível. Imagina o quanto não demorava antigamente para prensar um disco e distribuir nas lojas. Hoje é imediato.

Você acha que o Hip Hop ainda vai crescer muito no Brasil?

Não faço ideia. Não saberia prever porque o hip hop em si é uma parada muito além do rap. O hip hop eu acho que está menor do que era antigamente. A cultura não é mais difundida como antigamente. O rap é difundido, mas a cultura hip hop nem tanto.

E o que você acha que pode ser feito para mudar isso?

Eu acho que a gente já faz. Acho que é assim mesmo, não é uma coisa para dominar o mundo, sabe? Não é isso. É uma cultura. As pessoas que se identificam, elas se identificam. Quem não se identifica, eu pretendo mostrar. Se as pessoas olharem uma vez e não se interessarem, olharem a segunda e se interessarem, ótimo! Se elas olharem e não se interessarem, tudo bem também. Eu só espero que elas tenham outra forma de cultura que possa guiar elas para o que acreditam, mas não acho que o hip hop é a salvação. Acho que você se salva. Se é dentro do hip hop, ótimo. Pode ser dentro do rock. Dentro, sei lá, do sertanejo. Você pode se salvar de qualquer jeito. E quando eu digo se salvar, não é religião. É você entender você. Saber a parte que faz nesse planeta e procurar agir da melhor forma para a harmonia.

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